Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago), um personagem à procura de uma saída.  victor_constantine@hotmail.com

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SOBRE ARTE E MAGIA

Toda a arte e impulso criativo humano devem ter dado seus primeiros passos dentro da esfera da magia, sendo percebidos, em primeiro lugar, como tal.

As raízes da arte são distantes e obscuras. Os primeiros poemas, danças, imagens e sons estruturados não foram registrados exceto em lendas e tradições; na nódoa ocre na parede de uma caverna que, de certa forma, era a espinha curvada de um bisão para sua audiência inicial. Não podemos mais calcular o impacto que esses saltos de abstração devem ter tido sobre a mente paleolítica: os súbitos significados pelos quais se apreendia um campo de pensamentos e conceitos novo e fabuloso, tão verdadeiro e imediato quanto os caminhos sujos e abarrotados percorridos pelo homem primitivo diariamente, talvez menos substancial e, assim, menos vulnerável ao tempo e às estações.

A primeira codificação da dura realidade pessoal do homem primitivo em sons e símbolos deve ter oferecido um poder de comunicação alienígena e sem precedentes ao seu usuário, talvez equivalente ao que a telepatia pareceria para nós. O primeiro a captar alguma verdade inata do mundo humano dentro das linhas de um desenho ou da dança propeliria sua audiência através de um plano de compreensão e percepção diferente, mais extremo do que os efeitos de qualquer droga. Os desenhos nas paredes das cavernas de Lascaux, independentemente de qualquer significância ritual que pudessem ter, são em si mesmos um ato de magia. Para aqueles que não tinham o conceito prévio de uma imagem manufaturada, deve ter parecido que animais saltitantes foram conjurados em carne e osso e manifestaram-se dentro da própria caverna.

Se esta parece uma interpretação extrema de nossa primeira resposta para a arte, considere um exemplo posterior: quando Winsor McCay, um artista creditado com a invenção do desenho animado, exibiu pela primeira vez seu protótipo Gertie, the dinosaur, em 1914, a reação da audiência foi instrutiva. Sem o aparato perceptivo necessário para aceitar a noção de um desenho de animais, a maior parte da audiência, ao contrário, acreditou que estava testemunhando a aparição de um dinossauro real, de carne e osso sobre o palco diante dela.

Alan Moore
Citado por Abs Moraes em: The Birth Caul: apenas uma membrana?
Ilustração: The Birth Caul by Eddie Campbell



 Escrito por Mago às 23h26
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TOCO A TUA BOCA...

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenha-la com minha mão em seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de flagrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, esta instantênea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

Júlio Cortázar
O Jogo da Amarelinha - Capítulo 7



 Escrito por Mago às 23h05
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NOTHING

Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um pára-brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipóias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel's check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.

Pagu/Patricia Rehder Galvão
Publicado n'A Tribuna, Santos/SP, em 23/09/1962



 Escrito por Mago às 22h57
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OS MORTOS TÊM SUAS ESTRADAS...

Por elas transitam filas constantes de trens-fantasmas, carruagens de sonhos, atravessando a terra árida atrás das nossas vidas, com um tráfego infindável das almas que partiram. Seu ritmo monótono e pulsante pode ser ouvido nos lugares devastados do mundo através de fendas produzidas por atos de crueldade, violência e depravação. Sua carga, os mortos errantes, pode ser vista de relance quando o coração está a ponto de explodir, e visões que deviam estar ocultas surgem definidas.
Têm placas indicadoras, essas estradas, assim como pontes e acostamentos. Têm postos de pedágio e cruzamentos.
É nessas intersecções, onde multidões de mortos se encontram e se cruzam, que tais estradas proibidas têm mais probabilidade de penetrar nosso mundo. O tráfego é denso nos cruzamentos, e as vozes dos mortos mais penetrantes. Aí, as barreiras que separam uma realidade da outra estão gastas e tênues devido à passagem de incontáveis pés.
Uma das intersecções de estrada dos mortos ficava em Tollington Place, número 65. Apenas uma casa isolada, de falso estilo georgiano e fachada de tijolos, o número 65 não se destacava na paisagem. Uma casa velha, nada notável, despida da grandeza barata que ostentara no passado, há mais de dez anos encontrava-se vazia.
Não foi a umidade crescente que afugentou os inquilinos do número 65. não foi o bolor no porão, nem a sucumbência do terreno, que abrira uma fresta larga na frente da casa, dos degraus de entrada até o beiral, foi o barulho do tráfego. No andar superior, o ruído daquele movimento era contínuo. Rachava o estuque das paredes e retorcia as vigas. Sacudia os vidros das janelas também. O número 65 da Tollington Place era uma casa mal-assombrada, e ninguém podia possuí-la muito tempo sem ficar insano.
Em certo período de sua história, um horror fora cometido naquela casa. Ninguém sabia quando, nem o quê. Mas mesmo para o observador desavisado a atmosfera opressiva da casa, especialmente no andar superior, era evidente. Havia a lembrança e a promessa de sangue no ar do número 65, um cheiro que se instalava nas narinas e enjoava o estômago mais forte. A casa e as vizinhanças eram evitadas pelos insetos daninhos, pássaros e até pelas moscas. Nenhum cupim rastejava na cozinha, nenhum pardal fizera seu ninho no sótão. Fosse qual fosse a violência perpetrada, havia rasgado a casa de cima a baixo, como a barriga de um peixe, e através desse corte, daquele ferimento aberto diante do mundo, os mortos espiavam e comentavam o dia a dia.
Pelo menos era o que se dizia...

Clive Barker
Livros de Sangue - Volume 1
Ilustração: Twins? by Little Silver Bones



 Escrito por Mago às 02h31
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A FLOR E A NÁUSEA

Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade
Ilustração: Hunting and Shooting by ~ZeEnigMa



 Escrito por Mago às 14h44
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