O LAGARTO

Tinha o rosto macilento e suas roupas nunca pareciam suas. As saídas de casa eram sempre rápidas, furtivas como os olhos. Quando precisava andar mais de um quarteirão, percebia-se nitidamente o desconforto nas mãos que percorriam os braços ou puxavam a barra da blusa. Sua voz tentava um tom mais baixo, mais suave, mas sempre soava falsa e constrangia. Não tanto quanto sua risada. Surgia tão despropositada e infame, nervosa, e terminava com uma espécie de soluço que se prolonga até sumir. Quando conversava mantinha uma seriedade distante, presa não no que ouvia, mas na rigidez de seus próprios juízos. Suas relações eram estúpidas. De cada frase, gesto ou assunto das pessoas que ainda restavam ao seu lado, tirava horas de um monólogo exaltado e inútil, onde sempre deixava claro o quanto as pessoas aproveitavam de sua bondade e disposição para ajudar. Era a única que acreditava nisso, mas não importava. Seu rosto congestionava, as rugas ao redor da boca se apertavam e movia os lábios numa tentativa ridícula de sensualidade. Nos olhos surgia um brilho seco, contundente e frio. E nessas horas as coisas que dizia, seus gestos, sua figura, provocavam em quem via uma angústia que conforme sufocava e subia aos olhos, poderia estrangulá-la. Foi num desses momentos que, olhando pela janela, viu um imenso lagarto verde atravessando seu jardim. Dirigiu-lhe toda sua fúria, lhe atribuiu toda a vergonha e desgraça que já sofrera e as possíveis vindouras. Quanto mais berrava mais se irritava com aquela indiferença de lagarto. Foi quando seus olhos quase saltaram com o bombear do sangue e seu grito tornou-se contínuo, que o lagarto soltou rapidamente sua língua. Depois de totalmente enrolado, o corpo foi puxado para dentro do animal, que imediatamente tornou-se imóvel como uma pedra. Suas unhas cresceram em segundos, cravando-o ao chão. Muitas foram as tentativas de tirá-lo daqui, mas foi impossível. Então os passarinhos começaram a usá-lo para descansar e os musgos cresceram.
Priscila Miraz Ilustração: Dorian Cleavenger
Escrito por Mago às 02h45
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APENAS HUMANO...

Mas e quanto ao imperativo darwiniano de sobreviver e reproduzir-se? No que concerne ao comportamento cotidiano, não existe esse imperativo. Há quem fica assistindo a um filme pornográfico quando poderia estar procurando um parceiro, quem abre mão de comida para comprar heroína, quem posterga a gestação dos filhos para fazer carreira na empresa, quem come tanto que acaba indo mais cedo para o túmulo. O vício humano é prova de que a adaptação biológica, na acepção rigorosa do termo, é coisa do passado. Nossa mente é adaptada para os pequenos bandos coletores de alimentos nos quais nossa família passou 99% de sua existência, e não para as desordenadas contingências por nós criadas desde as revoluções agrícola e industrial. Antes da fotografia, era adaptativo receber imagens visuais de membros atraentes do sexo oposto, pois essas imagens originavam-se apenas da luz refletindo-se de corpos férteis. Antes dos narcóticos em seringas, eles eram sintetizados no cérebro como analgésicos naturais. Antes de haver filmes de cinema, era adaptativo observar as lutas emocionais das pessoas, pois as únicas lutas que você podia testemunhar eram entre pessoas que você precisava psicanalizar todo dia. Antes de haver a contracepção, os filhos eram inadiáveis, e status e riqueza podiam ser convertidos em filhos mais numerosos e mais saudáveis. Antes de haver açucareiro, saleiro e manteigueira em cada mesa, e quando as épocas de vacas magras jamais estavam longe, nunca era demais ingerir todo o açúcar, sal e alimentos gordurosos que se pudesse obter. As pessoas não adivinham o que é adaptativo para elas ou para seus genes. Estes dão a elas pensamentos e sentimentos que foram adaptativos no meio em que os genes foram selecionados.
Steven Pinker
Escrito por Mago às 02h42
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ESCREVER, HUMILDADE, TÉCNICA

Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de... de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse "estilo" (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em "humildade", refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade como técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.
Clarice Lispector Para não esquecer (1978)
Escrito por Mago às 23h32
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