Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago), um personagem à procura de uma saída.  victor_constantine@hotmail.com

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A julgar pelos padrões humanos, aquilo não poderia, de modo algum, ser artificial: tinha as dimensões de um mundo. No entanto, possuía forma tão estranha e complicada, tinha nitidamente finalidade tão complexa, que só poderia ser a expressão de uma idéia. Deslizando em órbita polar em torno da enorme estrela branco-azulada, assemelhava-se a um imenso e imperfeito poliedro no qual estivessem incrustadas milhões de cracas em forma de prato. Cada um dos pratos apontava para determinada parte do céu. Todas as constelações estavam sendo acompanhadas. O mundo poliédrico vinha desempenhando sua função enigmática havia eras e eras. Era pacientíssimo. Podia esperar eternamente.
(...)
A estrela branco-azulada era circundada, à altura de seu plano equatorial , por um vasto anel de destroços em órbita - rochas e gelo, metais e substâncias orgânicas -, avermelhados na periferia e azulados mais próximo da estrela. O poliedro que tinha as dimensões de um mundo precipitou-se por uma brecha nos anéis e saiu do outro lado. No plano do anel, havia sido intermitentemente obscurecido por blocos gelados e montanhas. Agora, entretanto, seguindo sua trajetória na direção de um ponto acima do pólo oposto da estrela, a luz do Sol faiscava em seus milhões de apêndices em forma de prato. Olhando com todo o cuidado, era possível perceber um deles realizando um ligeiro ajuste de mira. Mas não se veria a rajada de ondas de rádio que jorrava dali rumo às profundezas do espaço.
(...)
Os pulsos vinham percorrendo, havia anos, o imensurável abismo entre as estrelas. Vez por outra, interceptavam uma nuvem irregular de gás e poeira, e um pouco da energia era absorvida ou dissipada. O restante prosseguia na direção original. À frente deles havia um débil fulgor amarelado, cujo brilho aumentava aos poucos entre as demais luzes inflexíveis. Ainda que para olhos humanos não passasse de um ponto, era o objeto mais brilhante no espaço negro. Os pulsos estavam encontrando um enxame de gigantescas bolas de neve.
(...)
O grande vácuo negro fora deixado para trás. Os pulsos aproximavam-se agora de uma estrela anã, ordinária e amarela, e já haviam começado a se espalhar pelo séqüito de mundos daquele sistema obscuro. Haviam passado, vibrando, por planetas de hidrogênio gasoso, penetrando em luas de gelo, clivado as nuvens orgânicas de um mundo gélido no qual se agitavam os elementos precursores da vida e varrido um planeta que já ultrapassara em um bilhão de anos o seu apogeu. Agora os pulsos batiam num mundo quente, azul e branco, que girava contra o fundo das estrelas.
Existia vida nesse mundo, vida em extravagante quantidade e diversificação. Havia aranhas saltadoras nos topos gelados das montanhas mais elevadas e vermes que se alimentavam de enxofre em respiradouros quentes que jorravam para o alto por cristas no leito dos oceanos. Havia seres que só podiam viver num ambiente de ácido sulfúrico concentrado, assim como seres que eram destruídos em contato com essa substância; organismos para os quais o oxigênio era veneno, e também organismos que só logravam sobreviver com oxigênio, que na verdade o respiravam.
Uma forma de vida em especial, dotada de um tantinho de inteligência, se disseminara havia pouco pelo planeta. Já se aventurara a viver nos leitos dos oceanos e em órbitas de baixa altitude. Ocupava, em enxames, todos os recantos e recessos de seu pequeno planeta. A fronteira que assinalava a transição entre a noite e o dia movia-se em direção a oeste, e, acompanhando seu movimento, milhões desses seres faziam suas abluções matinais. Vestiam sobretudos e dhotis; ingeriam bebidas feitas de café, chá e dente-de-leão; para se locomover utilizavam bicicletas, automóveis e bois; e pensavam em trabalhos escolares, nas perspectivas da semeadura de primavera e no destino do mundo.
Os primeiros pulsos da cadeia de ondas de rádio insinuaram-se pela atmosfera e pelas nuvens, atingiram o solo e foram parcialmente refletidos para o espaço. Enquanto a Terra girava sob eles, pulsos sucessivos chegavam, engolfando não só um planeta, mas todo o sistema. Cada um dos mundos interceptou uma parte pequeníssima da energia. A maior parte dela continuou em frente, sem esforço - enquanto a estrela amarela e os mundos que compunham sua comitiva mergulhavam, numa direção inteiramente diferente, nas trevas caliginosas.

Carl Sagan
Contato - Cap. 1, 2, 3 e 4
Ilustração: 2001 - Uma Odisséia no Espaço



 Escrito por Mago às 13h31
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