DEFORMIDADE

O escritor goza de uma frágil saúde irresistível, que provém do fato de ter visto e ouvido coisas demasiado grandes para ele, fortes demais, irrespiráveis, cuja passagem o esgota, dando-lhe contudo deveres que uma gorda saúde dominante tornaria impossíveis. (...) A debilidade e exaustão do escritor devem-se ao fato de que ele viu demais, ouviu demais, foi atravessado demais pelo que viu e ouviu, desfigurou-se e desfaleceu, pois é grande demais para ele. Porém, uma vez que ele só pode manter-se permeável se permanecer numa condição de fragilidade, de imperfeição, essa deformidade, esse "inacabamento", seriam a mesma condição da literatura, pois é ali onde a vida se encontra em estado mais embrionário, onde a forma ainda não 'pegou' inteiramente. (...) Não há como, pois, preservar essa "liberdade de seres ainda por nascer" num corpo excessivamente musculoso, em meio a uma atlética auto-suficiência, demasiadamente excitada, "plugada", obscena.
Peter Pát Pelbart O Corpo Informe / Leituras do Corpo Ilustração: Frank Frazetta
Escrito por Mago às 01h56
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SOBRE PARIS...

Parece que está acabando a minha vida na Villa Borghese. Bem, apanharei estas páginas e mudar-me-ei. Acontecerão coisas em outros lugares. Sempre estão acontecendo coisas. Parece que onde quer que eu vá existe drama. As pessoas são como chatos - penetram na pele da gente e enterram-se lá. A gente coça e coça até sair sangue, mas não pode livrar-se permanentemente dos chatos. Em toda parte onde vou, as pessoas estão fazendo uma trapalhada em suas vidas. - Todos têm sua tragédia particular. Está no sangue agora - infortúnio, tédio, aflição, suicídio. A atmosfera está saturada de desastre, frustração, futilidade. Coça-se e coça-se - até não restar mais pele. Todavia, o efeito sobre mim é estimulante. Em vez de ficar desencorajado ou deprimido, divirto-me. Estou clamando por mais e mais desastres, maiores calamidades, malogros piores. Quero que todo mundo se desmantele, quero que todos se cocem até morrer. (...) Não é o acaso que trás gente como nós a Paris. Paris é simplesmente um palco artificial, um palco giratório que permite ao espectador entrever todas as fases do conflito. Por si só, Paris não inicia drama algum. Os dramas começam em outro lugar qualquer. Paris é simplesmente um instrumento obstétrico que arranca o embrião vivo do útero e coloca-o na incubadora. Paris é o berço de nascimentos artificiais. Balançando-se aqui no berço, cada um escorrega de volta para sua terra: sonha-se em voltar para Berlim, Nova York, Chicago, Viena, Minsk. Viena nunca é mais Viena do que em Paris. Tudo é elevado à apoteose. O berço entrega os bebês e outros novos ocupam seus lugares. Pode-se ler aqui nas paredes onde viveu Zola, Balzac, Dante e Strindberg, e toda gente que foi alguma coisa. Todos viveram aqui em uma ocasião ou outra. Ninguém morre aqui...
Henry Miller Trópico de Câncer
Escrito por Mago às 01h14
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