MORELLIANA

Por que escrevo isso? Não tenho idéias claras, nem sequer tenho idéias. Há trapos, impulsos, bloqueios, e tudo procura uma forma, então entra em jogo o ritmo, e escrevo dentro desse ritmo, escrevo por ele, movido por ele e não pelo que chamam de pensamento e que faz a prosa, literária ou outra. Há primeiro uma situação confusa, que mal se pode definir pela palavra; é dessa penumbra que eu parto, e, se aquilo que quero dizer (se aquilo que quer dizer-se) tiver força suficiente, o swing começa imediatamente, um oscilar rítmico que me traz para a superfície, que ilumina tudo, que conjuga esta matéria confusa e o que a padece numa terceira instância, clara e como que fatal: a frase, o parágrafo, a página, o capítulo, o livro. Esse oscilar, esse swing no qual se vai informando a matéria confusa, é a única certeza, para mim, da sua própria necessidade, pois, tão logo cessa, compreendo que já nada mais tenho para dizer. É também a única recompensa do meu trabalho: sentir que aquilo que escrevi é como o dorso de um gato sob a carícia, com fagulhas e um arquear cadencioso. Assim, pela escritura, desço ao vulcão, aproximo-me das Mães, entro em contato com o Centro, seja o que for. Escrever é desenhar a minha mandala e, ao mesmo tempo, percorre-la, inventar a purificação, purificando-se; tarefa de um pobre xamã branco com cuecas de náilon.
Julio Cortázar O Jogo da Amarelinha - Capítulo 82
Escrito por Mago às 17h24
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SOLITÁRIO ENTRE NÓS

...ao descer aquelas escadas toscas, sentindo a madeira ranger sob os seus pés, não pôde deixar de sentir uma opressão quase física. A sensação não lhe era de todo estranha: era similar ao mau estar que já o dominara tantas vezes em outras festas, a diferença agora estava na intensidade. Ao adentrar aquele porão (ou seria cripta?), tão secreto quanto solitário, escuro e fétido, foi dominado por uma angústia terrível, como se o peso de um mundo fosse despejado sobre suas costas. Caminhou por aquele lugar, tão amplo que seria necessário o tempo de uma vida para explora-lo e, quase que por instinto, seus passos o guiaram até ELE. Na penumbra das tênues lamparinas, ele era quase invisível. Jazia, sentado na poeira, encolhido e imóvel, abraçando as pernas contra o corpo numa posição fetal. Não tinha traços físicos ou características que o individualizassem: seu corpo era liso e amorfo, como um boneco de massa, sem feições, sem textura, sem cor, tão transparente que podia enxergar através dele. Não estava vivo, mas tampouco estava morto: tais conceitos não se aplicavam a ele. Estava inanimado agora. Era até difícil acreditar que, poucas horas atrás, na festa logo acima daquele porão tétrico, essa mesma figura não só possuía forma, cor e vida, como também emanava um encanto quase irresistível. Dançava, sorria, amava, cada gesto carregado de intensa vivacidade, tão belo que seria capaz de seduzir a quem quer que desejasse, como de fato o fez. Agora que todos haviam partido, não era mais nada. Toda beleza, toda vida, se fora. Aproximou-se, fascinado, e, para seu espanto, ele repentinamente tomou cor, tomou forma, começou a respirar. Ergueu a cabeça e sorriu. O rosto... era o seu rosto...
Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago) Fragmento da noveleta Solitário Entre Nós, de 1997, revisto e modificado em Junho de 2006.
Escrito por Mago às 18h46
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