CARTA SOBRE CORTO MALTESE

Presadíssimo Sr. Ivaldi,
Com esta carta comunico-lhe que os manuscritos de Cain Groovesnore, meu tio, eu os confiei ao Sr. Pratt. Como também o livro de bordo do Capitão de Fragata Slütter e dois mapas marítimos que pertencem ao Capitão Galland. Isso foi tudo o que pude encontrar entre os velhos papéis e livros de meu pai, além de uma carta da prima de meu tio, Pandora Groovesnore, que ficou comigo. A carta em si não tem muito valor documental para a história que deseja publicar. Mas somente um valor afetivo para mim, todavia transcreverei um breve trecho que pode lhe interessar.
Diz: ...se vires Cain lembra-lhe que não se esqueça de enviar-me aqueles mapas que estou esperando. Conta-lhe que as crianças estão bem e que Pamela pergunta sempre por ele. Nós também estamos muito bem, mas tivemos uma desgraça na família, o tio Tarao morreu. Deixou um grande vazio entre nós, mas é sobretudo pelo tio Corto que agora me preocupo. Aqueles dois se compreendiam perfeitamente e eram inseparáveis. Agora, quando vejo o tio Corto sentado sozinho no jardim, com o olhar apagado diante daquele seu grande mar, sinto um aperto no coração. As crianças procuram fazer-lhe companhia, mas ele quase nem as percebe. Cain deveria vir aqui por algum tempo. A primavera já chegou e o jardim já está cheio de flores...
A carta continua ainda, mas não nos diz mais respeito. Há algumas manchas nela que parecem ser produzidas por lágrimas. Diz-se que o último pirata foi Lafitte, mas não é verdade. O último pirata é o Monge. Costumo dizer: é... porque estou certo de que não terminou os seus dias e isso deveria surpreender, uma vez que, quando Cain Groovesnore o encontrou, estava ele já velho. Isso aconteceu em 1914, em uma zona do Pacífico Sul. Lá encontrou também Corto Maltese, o verdadeiro marinheiro, Capitão Rasputin, um maldito assassino, o Capitão de Fragata Slütter, que foi um herói obscuro, o maore Tarao, seu amigo, e, por último, Geremias, que poderia ter sido tudo e preferiu ser ninguém. Esses foram os personagens importantes entre tantos outros e tiverem um grande peso em sua vida. Penso que quando era jovenzinho devia ter um caráter irascível, bastante preguiçoso e vazio. Certamente foram os tapas de Corto Maltese e a nobreza de Geremias que o mudaram, além das humilhações que sua prima Pandora lhe infligiu, que Deus a abençoe. Esta é uma história verdadeira e eu não a teria revelado nunca se o Sr. Pratt não tivesse insistido para que eu contasse todos esses fatos. Termino assim essa carta e o saúdo cordialmente, junto com sua família. Espero revê-lo brevemente e não se esqueça que estamos aqui a sua espera.
Seu, R. Obregon Carranza 16/6/65 Viña del Mar (Chile)
Carta publicada na edição brasileira de A Balada do Mar Salgado, de Hugo Pratt, na primavera de 1983 pela Editora L&PM
Escrito por Mago às 14h04
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