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SECHIISLAND'S MICRO GALLERY - Um Lugar Para Falar de Arte

Peço licença aqui, ao leitor apressado, para que dedique a esse texto um pouquinho mais de tempo e atenção. Não demorará muito, eu prometo. O objetivo é arranhar de leve um pequenino aspecto da, sempre relevante, discussão sobre a produção artística atual em suas manifestações mais subterrâneas e distantes da onipresente mesmice regurgitada pela mídia. O discurso televisivo, o culto à fama - tão presente na cultura ocidental - leva as pessoas a confundirem artistas com celebridades, achar que Arte se resume ao ator da novela, o cantor do rádio, o apresentador da TV, pouco importando a qualidade do trabalho dos mesmos, basta estarem na mídia. Quem não estiver simplesmente não existe. Chega a ser óbvio dizer que a Arte é muito mais do que isso e que os grandes artistas - que não estão e nem querem estar na mídia (mas nem por isso são menos célebres entre os que convivem com a Arte) - são pessoas comuns como eu e você, caminham conosco nas ruas, são acessíveis e nada têm do estereotipo de artista distante e hermético, colocado num pedestal. São pessoas que podem nos ensinar, melhor do que ninguém, que a diferença entre o mundo que aí está e o mundo que nós sonhamos é uma simples questão de vontade. Para exemplificar, gostaria de falar sobre uma dessas pessoas, residente em Rio Claro, interior de São Paulo. Seu nome é José Roberto Sechi, um artista plástico de raro quilate que, como acontece com todos os bons artistas, é considerado brilhante por alguns e tolo por outros. Sechi é pintor, escultor, poeta e uma verdadeira enciclopédia viva da História da Arte. Já teve trabalhos selecionados em mais de uma centena de salões de arte, concursos de poesia e antologias literárias, tendo sido premiado 43 vezes. Suas obras já estiveram expostas no Centro Cultural e no Gabinete de Leitura de Rio Claro, mas é muito improvável que algum dos habitantes da cidade se lembre disso. Exposições em locais públicos são sempre notadas superficialmente. Ficam ali, implorando atenção de pessoas apressadas demais para dedicar mais do que uma breve olhadela. São meramente "vistas", não "lidas", não são assimiladas, interpretadas, não alteram em nada as pessoas que passam por elas. Estão apenas ali, no caminho, "para inglês ver". Isso sem contar que o tratamento dado à Arte nesses ditos "espaços culturais" é, quase sempre, do mais completo descaso.

Farto desse tipo de coisa, Sechi deu início a um projeto muito pessoal, algo que vem germinando desde os tempos em que foi funcionário dos Correios. Nessa época, Sechi aprofundou seus contatos com o movimento da Arte Postal, um atuante sistema estratégico de intercâmbio artístico, no qual envelopes, cartões, selos, pacotes, carimbos, etc. tornam-se veículos para obras de arte ou mesmo as próprias. O sistema internacional dos correios é literalmente invadido por manifestações artísticas que cruzam fronteiras, trocam de mãos, reproduzem-se, quebram barreiras de idiomas e culturas e criam uma vasta rede de intercomunicação entre artistas de todo o mundo. Pessoas, óbvio, totalmente ausentes da mídia, invisíveis para o mundo dos não-engajados na arte, mas extremamente presentes como forças políticas, estéticas e ideológicas nesse imenso caldo cultural underground.

O envolvimento de Sechi com a Arte Postal permitiu o fortalecimento de laços com artistas do mundo todo. Autodidata e estudioso de idiomas, comunica-se nas mais diferentes linguagens, desde o velho inglês até línguas complicadas como russo e romeno. Isso permitiu que fizesse de sua casa um verdadeiro centro cultural, armazenando cuidadosamente inúmeras obras de Arte Postal, além de uma banco de dados artístico que faria inveja a muitos museus. Até porque, ao contrário de um museu, a casa de Sechi é viva e atuante. Obras não param de chegar e partir. Sechi decidiu, por fim, transformar sua própria casa num espaço alternativo para exposições e manifestações artísticas. Nasceu assim o Projeto Sechiisland que, nas palavras de seu criador: "é um país imaginário, uma ilha fantástica, um estado de espírito, um projeto de arte conceitual".

O projeto abarca, entre outras coisas, a revista "Pense Aqui", uma publicação artesanal dedicada à divulgação e documentação de obras de arte postal, mas seu carro-chefe é a "Sechiisland's Micro Gallery", um espaço destinado à pequenas exposições individuais de artistas cujos trabalhos têm em comum o fato de estarem inseridos nos movimentos experimentais artísticos e literários surgidos a partir da década de sessenta do século vinte até os dias atuais. Segundo Sechi, a proposta da micro-galeria é ser um espaço diferenciado dos tradicionais espaços para exposições. Ao invés de ser posta no caminho das pessoas suplicando a atenção de algum ocasional transeunte interessado, exige que o visitante faça o primeiro esforço e desloque-se até a periferia da cidade de Rio Claro, no objetivo não de "ver", mas sim de "ler" uma exposição de artes plásticas ou poesia visual, inclusive garantindo ao visitante o mínimo de informações necessário para essa leitura (Sechi, pessoalmente, atua como curador, orientando o visitante e respondendo perguntas). A cada mês, uma exposição diferente na galeria. A inauguração aconteceu em Primeiro de Janeiro de 2003 com a exposição Poemas para Mirar, poesia visual de Clemente Padín, do Uruguai. Prosseguiu com o brasileiro Falves Silva e sua mostra Explovisão 2003 - Poema-Processo Hoje, Walter Pennacchi, em sua mostra Opere di Collage, e muitos, muitos outros.

Você já deve ter imaginado que o número de visitantes não é muito grande. De fato, mas isso não chega a incomodar Sechi, afinal já estava previsto. O objetivo é ter um público pequeno porém diferenciado de artistas, poetas ou simples amantes da arte, que procuram uma alternativa aos produtos da mídia. Acima de tudo pessoas de fato interessadas e não meros passantes, que poderão apreciar as obras, aprender, trocar idéias e beber um bom vinho, declarando em alto e bom tom que a Arte está longe de desaparecer. Um farol brilhando no horizonte sombrio, um porto seguro para os navegantes. Um lugar para alargar os horizontes.

A Sechiisland's Micro Gallery fica na Av. M-29, 2183, Jd. São João, Rio Claro/SP (Cep. 13505-410). Os interessados devem agendar um horário com Sechi através do tel. (19) 35249629 ou pelo e-mail sechiisland@yahoo.com.br

Rodrigo Emanoel Fernandes
Ilustração: Brain Cell - Fractal - Ryosuke Cohen (Japão)



 Escrito por Mago às 19h19
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O SILÊNCIO DAS SEREIAS

Prova de que até os meios insuficientes - infantis mesmo - podem servir à salvação:

Para se defender das sereias, Ulisses tapou os ouvidos com cera e se fez amarrar ao mastro. Naturalmente - e desde sempre - todos os viajantes poderiam ter feito coisa semelhante, exceto aqueles a quem as sereias já atraíam à distância; mas era sabido no mundo inteiro que isso não podia ajudar em nada. O canto das sereias penetrava tudo e a paixão dos seduzidos teria rebentado mais que cadeias e mastro. Ulisses porém não pensou nisso, embora talvez tivesse ouvido coisas a esse respeito. Confiou plenamente no punhado de cera e no molho de correntes e, com alegria inocente, foi ao encontro das sereias levando seus pequenos recursos.

As sereias entretanto têm uma arma ainda mais terrível que o canto: o seu silêncio. Apesar de não ter acontecido isso, é imaginável que alguém tenha escapado ao seu canto; mas do silêncio certamente não. Contra o sentimento de ter vencido com as próprias forças e contra a altivez daí resultante - que tudo arrasta consigo - não há na terra o que resista.

E de fato, quando Ulisses chegou, as poderosas cantoras não cantaram, seja porque julgavam que só o silêncio poderia conseguir alguma coisa desse adversário, seja porque o ar de felicidade no rosto de Ulisses - que não pensava em outra coisa a não ser em cera e correntes - as fez esquecer de todo e qualquer canto.

Ulisses no entanto - se é que se pode exprimir assim - não ouviu o seu silêncio, acreditou que elas cantavam e que só ele estava protegido contra o perigo de escutá-las. Por um instante, viu os movimentos dos pescoços, a respiração funda, os olhos cheios de lágrimas, as bocas semiabertas, mas achou que tudo isso estava relacionado com as árias que soavam inaudíveis em torno dele. Lobo, porém, tudo deslizou do seu olhar dirigido para a distância, as sereias literalmente desapareceram diante da sua determinação, e quando ele estava no ponto mais próximo delas, já não as levava em conta.

Mas elas - mais belas do que nunca - esticaram o corpo e se contorceram, deixaram o cabelo horripilante voar livre no vento e distenderam as garras sobre os rochedos. Já não queriam seduzir, desejavam apenas capturar, o mais longamente possível, o brilho do grande par de olhos de Ulisses.

Se as sereias tivessem consciência, teriam sido então aniquiladas. Mas permaneceram assim e só Ulisses escapou delas.

De resto, chegou até nós mais um apêndice. Diz-se que Ulisses era tão astucioso, uma raposa tão ladina, que mesmo a deusa do destino não conseguia devassar seu íntimo. Talvez ele tivesse realmente percebido - embora isso não possa ser captado pela razão humana - que as sereias haviam silenciado e se opôs a elas e aos deuses usando como escudo o jogo de aparências acima descrito.

Franz Kafka
Tradução: Modesto Carone
Ilustração: Dorian Cleavenger



 Escrito por Mago às 12h18
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