Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago), um personagem à procura de uma saída.  victor_constantine@hotmail.com

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CORTO MALTESE, O BOM PIRATA

"Num mundo no qual tudo é eletrônico, onde tudo é calculado e industrializado, não existe espaço para um tipo como Corto Maltese"
(Hugo Pratt)

O pirata Corto Maltese era um viajante compulsivo, como todo pirata que possa assim ser chamado. Esteve em Hong-Kong, na Rússia, nas Caraíbas, na Argentina, na Suíça, na Turquia, no Egito e em muitos outros lugares. A sua vida, explica-se numa frase: chegar, envolver-se em aventuras e voltar a partir. Nunca deu demasiada importância ao local que visitaria a seguir nem ao que deixava para trás. Quando sua amiga Pezinho de Prata, uma veneziana com uma perna de prata, lhe perguntou o quer ia fazer, disse: "Vou-me embora por aí". Em todos os lugares exibia charme, desconcertante tranqüilidade e valores próprios. Corto dava a vida por uma boa causa, desde que esta lhe rendesse lucros. Há um diálogo entre ele e a enigmática Boca Dourada, uma feiticeira com mais de duzentos anos, possivelmente inspirada na baiana fundadora do Terreiro do Gantois, que diz tudo: "Fique sabendo que não acredito em princípios e, além disso, existem muitos tipos de moral", disse-lhe o marinheiro. "Então arranjemos uma que lhe convenha, uma de mil libras esterlinas. Agrada?", perguntou ela. "Oh sim, sim", concluiu o pirata.

Ele nunca chegou a existir realmente, e ainda hoje continua bem vivo, mesmo que o seu criador, o italiano Hugo Pratt, tenha morrido em 1995. Corto vive no imaginário de inconformistas como eu, de poetas como o português Rui Lopo ou de jornalistas como o potiguar Carlos Peixoto, que chegou a inventar um encontro do herói com o escritor francês Saint-Exupéry no Rio Grande do Norte, além de centenas de outros embruxados em todo o mundo por seu encanto. "Quando quero relaxar leio Engels, quando quero viajar leio Corto Maltese", confessou Umberto Eco, o autor de O Nome da Rosa. Estive no Festival de Angoulême (445 km de Paris), o maior encontro de desenhistas de quadrinhos do planeta, e o nome do marinheiro cool e sofisticado corria de boca em boca. Réplicas do casaco do aventureiro destemido e ao mesmo tempo distante, eram vendidas aos montes. Ainda na Europa, eu costumava passar dias inteiros em feiras populares em busca de uma estória sua. Lembro que comemorei com uma bebedeira ao descobrir entre montanhas de gibis, a edição original de A Balada do Mar Salgado, nos Encantes, em Barcelona. Nela, ele se envolve nos Mares do Sul com Pandora, a filha de um rico armador australiano.

Nascido em Rimini, a mesma terra de Fellini, em 1929, Hugo Pratt viveu em vários países, esteve no Nordeste, fazendo uma reportagem sobre Lampião para o Il Corriere de La Sera, e morreu em Lausanne, na Suíça, vítima de um tumor no estômago. É um grande contador, na melhor tradição de Stevenson, Melville, Maugham ou Conrad. O seu traço é solto, de gesto brusco e mancha pura. Um jogo de sombras a preto e branco. Um extremo rigor no que concerne aos cenários e situações, com inteligente complexidade nos enredos. Um universo inédito e ímpar. Em 1967, criou o produto pop Corto Maltese, que era uma espécie de alter ego, fundindo história, mito e ficção. Do Atlântico ao Pacífico, o protagonista pirata percorreu o mundo marginalmente, envolvendo-se na Primeira Guerra Mundial, na Revolução Bolchevique, nas lutas entre cangaceiros e coronéis no sertão do Brasil, nas disputas por bananas ocorridas na América Central. Foram cerca de 25 álbuns que nos descrevem as aventuras deste marinheiro elegante, misterioso e irônico. Um homem que prefere a liberdade, a descoberta e a amizade, rejeitando a matança e o assassínio. Moreno, lábios carnudos, cabelo preto, um metro e oitenta, uma pele bronzeada pelo sol e uma argola na orelha esquerda, Corto Maltese seduzia a todo e qualquer mortal. Nasceu em Malta, a 10 de julho de 1870, filho de uma linda prostituta cigana, La Niña, modelo do pintor Ingres e dançarina de flamenco, e de um comandante da Marinha Britânica, que, logo depois desapareceu. Educou-se num colégio hebraico, uma vez que um amante de sua mãe, o rabino de Malta, se afeiçoou a ele e pagou todas as despesas.

Ainda menino, ao ser alertado que não tinha a linha da sorte, Corto pegou a navalha do pai e fez um longo corte na mão. Inteligente, reservado, valente e apaixonado por arte e literatura, essa figura de desenho em quadrinhos trocou idéias com escritores famosos. Na aldeia de Savuit sur Lutruy, ganhou um livro do autor de Sidharta, o prêmio Nobel Hermann Hesse; esteve com o dramaturgo Eugene O'Neill na Argentina e com o norte-americano Jack London na guerra entre russos e japoneses. Conheceu um jovem Stalin numa aldeia russa, o louco e anarquista Rasputin, John Reed e a pintora Tamara de Lempicka; assistiu a queda do Barão Vermelho e salvou a vida de Butch Cassidy , façanha recordada em Tango. Uma vida completamente movimentada e explosiva, sempre a caça de tesouros, traduzida em mais de 15 línguas. Corto nunca morreu. Estava previsto que o seu fim ocorreria na Guerra Civil espanhola, mas o álbum nunca foi desenhado.

O mestiço e libertário Corto tinha uma casa em Hong-Kong decorada com bons quadros e as estantes cheias de livros. Bom coração, costumava vender seus serviços, inclusive para criaturas infames, como o Monge, que fornecia carvão aos barcos de guerra alemães durante a Primeira Guerra, e vivia de contrabando e tráfico de armas. Generoso, veio ajudar uma amiga na Varsóvia apanhada por uma organização que se dedicava ao tráfico de mulheres. Invenção de um sedutor desempregado, Corto Maltese pode ser colocado no mesmo nível de um Bruce Chatwin, um Paul Bowles, um Exupéry. Eu amo-o como a um personagem de carne-e-osso. Costumo deitar na rede, acender um cigarro, fechar os olhos e conversar alegrias e desencantos com Corto Maltese. Uma tarde dessas, da varanda em Ponta Negra vendo o mar, falamos sobre Natal, sua gente, seus intelectuais, alguns livros e ele gargalhou ironicamente com a visão da reprodução de uma obra da mexicana Frida Kahlo numa moldura. "Não gosta?", perguntei. "Não exatamente. Me parece excessivamente sofrido". Com a consciência de quem sabe que a realidade sensível não é bem aquilo que parece, revelando um desprendimento perante as certezas da vida, Corto terminou dizendo que nada vale a pena ser levado a sério, e que para viver serenamente é preciso aceitar um mundo de fábula. "Não concordo", cortei. "Como não? Você vive numa existência de fábulas, amigo Antonio. Veja ao seu redor: livros, escritos, fotografias, filmes, viagens, solidão, música, cartas...E quando um adulto entra no mundo das fábulas, nunca mais consegue sair de lá. Mas não se preocupe, não é o único, e é bom viver numa fábula. Eu vivo assim".

Antonio Júnior



 Escrito por Mago às 19h32
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