FRAGMENTO DE UMA VIDA POSSÍVEL

...era uma pessoa querida, mas não sexualmente... nesse aspecto chamava pouca atenção e tentava acreditar que era feliz assim. Poucos namorados, um certo número de trepadas nem sempre satisfatórias. Era bonita... na verdade linda, mesmo que de uma maneira velada, quase auto-depreciativa. Mas beleza não é suficiente, algo faltava para atrair o desejo, os olhares... algo não emanava. Ela odiava a solidão, queria companhia, queria mesclar-se, tornar-se parte de outra pessoa. Queria, obviamente, o que todos querem, mas não sabia como procurar. Sua fome, sua carência, repeliam mais do que atraiam. Era sincera demais... e falsa demais. Admitia as emoções... mas dissimulava a carne... a necessidade que, acreditava, conseguia satisfazer com masturbações solitárias. Buscava o amor de forma excessivamente direta.
Não estava acostumada a ser notada, a despertar o interesse de quem quer que seja. Houve momentos em sua vida que ansiou violentamente pelas atenções dos homens, ou mesmo das mulheres, mas o tempo se encarregou de atrofiar aquela esperança ingênua que, não satisfeita, estimulava apenas dor. A necessidade submergiu, paulatinamente, para as esferas inconscientes, para as coxias do teatro do dia a dia que encenava, e ela encontrava em outras formas de prazer a satisfação que carecia. O prazer intelectual, as revelações de uma mente atenta as minúcias da aparência de realidade que a cercava. Vivia para seus livros, seus filmes, suas peças, sua música, vivia para os detalhes, para a satisfação voyerística que alimentava indiretamente a fome interior que permanecia intocada. Nos cafés, nos bares alternativos, nas brechas da realidade dos trabalhos e estudos cotidianos ela entrevia uma realidade insuspeitada, um universo de minúcias que revelavam verdades tão mais fascinantes sobre aquele burburinho incessante formado por tantas pessoas, tantas vidas se cruzando. Ela se sentia à deriva desse mar que os outros não notavam, ao menos não diretamente, e na impossibilidade de meramente submergir em suas águas, ela encontrava alguma satisfação em navegar através delas.
Entretanto, nas inevitáveis madrugadas em que o silêncio e a insônia dificultam as distrações e uma brutal clareza parece insinuar-se através das frestas do pensamento, quando dedos habilidosos tentam apaziguar o fogo oculto que insiste em emanar, úmido e radiante, zombando das engenhosas certezas e justificativas, ela imaginava se todo aquele rico universo que a compunha - causa e conseqüência de sua solidão - jamais seria compartilhado e tudo o que ela descobrira naquele insuspeitado oceano desapareceria em outras profundezas, ainda mais veladas...
Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago) Ilustração: In Melancholy Arms - Quaid60
Escrito por Mago às 18h36
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HOLY SMOKE - O QUE É REALIDADE ?

Transcrição de uma curta aparição de Alan Moore no LONDON WEEKEND TELEVISION, no qual ele é convidado a compartilhar sua resposta pessoal à pergunta perene.
Realidade, à primeira vista, é uma coisa simples: a televisão que fala agora com você é real. Seu corpo afundado numa cadeira quando a meia-noite se aproxima, um relógio que faz tique-taque no limiar da consciência. Todo o detalhe infinito de um mundo sólido e material que o cerca. Estas coisas existem. Elas podem ser medidas com uma jarda, um voltímetro, uma balança. Estas coisas são reais.
Então há a mente, meio focalizada na televisão, o sofá, o relógio. Este fantasmagórico nó de memória, idéia e sentimento que chamamos de nós mesmos, também existe, embora não dentro do mundo mensurável que nossa ciência pode descrever. Consciência é inquantificável, um fantasma na máquina, quase não considerado real, apesar, de certo modo, ser este flutuante mosaico de consciência a única verdadeira realidade que nós podemos entender.
O Aqui-e-agora demanda atenção, está mais presente para nós. Nós consideramos o mundo interno de nossas idéias como menos importante, embora a maioria de nossa realidade física imediata tenha se originado apenas na mente. A televisão, o sofá, o relógio e o quarto e toda a cultura que os contêm uma vez não foram nada exceto idéias. Existência material é completamente fundada no reino fantasma da mente, cujas natureza e geografia se mantém inexploradas.
Antes que a Idade de Razão fosse anunciada, a humanidade tinha polido estratégias para interagir com o mundo do imaginário e do invisível: complicados sistemas mágicos; abrangentes panteões de deuses e espíritos, imagens e nomes que nós classificamos como poderosas forças internas, de forma que poderíamos entendê-las melhor. Intelecto, emoção e pensamentos inconscientes foram feitos divindades ou demônios de forma que nós, como Fausto, pudessemos entender melhor; interagir com eles; nos transformar neles. Culturas antigas não adoravam ídolos. As estátuas de seus deuses representaram estados ideais que, quando sob constante meditação, alguém poderia aspirar.
A Ciência prova que nunca houve uma sereia, um Krishna de pele azulada ou uma virgem dando à luz em nossa realidade física. Apesar de o pensamento ser real, e o domínio do pensamento ser o único lugar onde deuses invisíveis exercem tremendo poder. Se Afrodite fosse um mito e o amor apenas um conceito, então isso negaria os crimes e os gestos de carinho e as canções feitas em nome do amor? Se o Cristo, alguma vez , tivesse sido considerado apenas ficção, uma idéia divina, isto invalidaria as mudanças sociais inspiradas por esta idéia, feito das guerras santas menos terríveis ou o aperfeiçoamento humano menos real, menos sagrado?
O mundo das idéias é, de certo modo, mais profundo e mais verdadeiro que a realidade; esta televisão sólida é menos significante que a idéia de televisão. Idéias, estruturas sólidas distintas não perecem. Eles permanecem imortais, imateriais e em todos lugares, assim como todas as coisas divinas. Idéias são uma paisagem dourada e selvagem que nós vagamos inadvertidamente sem um mapa. Tenha cuidado: em última análise, a realidade pode ser exatamente o que nós achamos que ela seja.
Alan Moore Fonte: Alan Moore Site
Escrito por Mago às 18h28
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