TENTATIVA PARADOXAL DE (MAIS) UMA TRADUÇÃO

Isolado em seus próprios pensamentos, ruminando as inumeráveis vozes do passado, correlacionando idéias, impressões, sensações… atingindo ápices internos sutis e inenarráveis do mais puro prazer intelectual, tão contrastante com o prazer mundano, o infinitamente desejado e cada vez mais distante prazer do contato, do contágio, do externo que se interioriza. Abandonando-se diante dos outros, ouvia suas vozes, acompanhava os lábios em seu frenético movimento de exteriorização das profundezas íntimas complexamente traduzidas em palavras, frases, sentenças… linguagem… um texto solto ao vento, ansiando comunicação mas não oferecendo mais do que facetas, pequenas, insuficientes… Não prestava mais atenção nas palavras, ficava atento apenas aos lábios, à entonação, às delicadas variações na postura, nas linhas do rosto, nas emanações subjetivas que, na falta de melhor denominação, convinha chamar de aura. Usava as palavras, tanto ouvidas quanto proferidas, apenas quando não era possível o contato dos corpos e os demais detalhes revelavam-se insuficientes. (E como lhe era precioso esse contato… esse encontro de corpos, essa intimidade física que tanto comunicava, algo tão essencial e tão violentamente carregado de significações arbitrárias quase impossíveis de burlar, tanta sacralização para algo tão simples: corpos se tocando, tornando aquela cansativa e desanimadora tradução da linguagem tão desnecessária…) Portanto pouco falava, cansava-se facilmente daquele ato maçante de traduzir. Sabia que essa atitude condenava-o exatamente àquilo que mais temia, mas aquele contato ineficaz das palavras chocando-se e dissipando-se no ar, aqueles textos que melhor caberiam em paginas escritas do que entre dois seres de carne e sangue, tampouco serviam para aliviar aquela sensação terrível de isolamento… desejava comunicação, contato, de uma forma tão intensa que as palavras, tão limitadas, jamais poderiam traduzir. Parecia frio e distante diante das pessoas que, intimamente, desejava, mas essa frieza ocultava uma chama viva e radiante que ameaçava consumi-lo. E como poderia explicar sem a abertura para o toque, a permissão do contato, da intimidade física, da comunicação direta, sem intermediários? Como poderia traduzir a magnífica complexidade que sentia em sua mente e entranhas, todo aquele aterrador e esfuziante infinito que era o seu eu verdadeiro e desprovido de máscaras, enquanto estivesse limitado ao ridículo vocabulário verbal? Melhor calar, então… ouvir, olhar, sentir… admirar o tocante esforço das pessoas atrapalhando-se em traduções grosseiras que pouco dizem, tecendo máscaras tão complexas e ilusórias, falando e falando e falando incessantemente, enquanto seus olhos, seus corpos, seus gestos e atos falhos revelam aquele desejo profundo e primordial: simplesmente tocar, romper as fronteiras entre si e o outro diretamente, sem quaisquer intermediários, deixar de ser apenas um indivíduo para se tornar parte de algo maior, complexo, íntimo… impossível de traduzir nesse texto pobre, feito de meras palavras…
Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago)
Escrito por Mago às 03h27
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L'ART POUR L'ART

A luta contra a finalidade na arte é sempre a luta contra a tendência moralizante na arte, contra a sua subordinação à moral. L'art pour l'art significa: "Que o diabo carregue a moral!" - Mas até mesmo esta inimizade denuncia a força preponderante do preconceito. Se se exclui da arte a finalidade própria à pregação moral e ao melhoramento da humanidade, então ainda está longe de seguir daí que a arte é em geral sem finalidade, sem meta, sem sentido; em resumo, a arte pela arte - um verme que morde o seu próprio rabo. É preferível nenhuma finalidade à uma finalidade da moral - assim fala a mera paixão. Um psicólogo pergunta em contrapartida: o que faz toda a arte? ela não louva? ela não glorifica? ela não seleciona? não realça? Com tudo isto, ela fortalece e enfraquece certas estimativas de valor... Isto é apenas um acessório? Um acaso? Algo de que o interesse do artista não tomaria parte absolutamente? Ou então: não é o pressuposto para tanto que o artista esteja em condições de empreender tudo isso...? Seu instinto mais profundo tende para a arte, ou, ao invés disso, muito mais para o sentido da arte, para a vida? Para algo desejável da vida? - A arte é o maior estimulante para a vida: como se poderia entendê-la como sem finalidade, como sem meta, como l'art pour l'art? Uma pergunta ressurge: a arte faz com que se manifeste também algo feio, duro, discutível da vida - ela não parece com isso dirimir a paixão pela vida? - E de fato houve filósofos que lhe emprestaram este sentido: "apartar-se da vontade", ensinava Schopenhauer enquanto intuito total da arte, "estar afinado com a resignação" honrava ele enquanto a grande utilidade da tragédia. - Mas isto - já dei a entender - é uma ótica de pessimista e um "mau olhado": precisa-se apelar para os próprios artistas. O que um o artista trágico comunica de si? Não é exatamente um estado sem temor frente ao temível e problemático, que ele indica? - Esse estado mesmo é algo desejável; quem o conhece o louva com os louvores mais elevados. Ele o comunica, ele precisa comunicá-lo, pressuposto que é um artista, um gênio da comunicação. A valentia e a liberdade do sentimento frente a um inimigo poderoso, frente a uma sublime adversidade, frente a um problema que desperta horror - esse estado triunfal é aquele que o artista seleciona, que ele glorifica. Diante da tragédia, o que há de belicoso em nossa alma festeja suas Saturnais; quem procura por sofrimento, o homem heróico, exalta com a tragédia sua existência - a ele apenas, o artista trágico oferta o cálice desta dulcíssima crueldade.
Friedrich Nietzsche Crepúsculo dos Ídolos
Escrito por Mago às 03h54
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O CAMINHO DO HERÓI

É muito difícil, quase absurdo mesmo, querer explicar às pessoas emocionalmente distorcidas que a auto-expressão é o que importa - aquilo que exprimimos e de que maneira o exprimimos é inteiramente irrelevante. Nossa vontade é pedir a essas pessoas que tentem qualquer coisa - seja o quer for, contanto que apresse a sua libertação pessoal. Ensinaram-nos que não existe coisa alguma que seja basicamente errada ou má. O único erro é o medo de errar, de tomar essa ou aquela atitude. Hoje em dia parece que todos nós somos movidos apenas pelo medo. Temos medo até daquilo que é bom, saudável e alegre. E o que é um herói? Antes de mais nada, é aquele que conquistou os seus temores. Pode-se ser herói em qualquer situação; quando aparece um herói, ele é logo reconhecido. A sua única virtude é a de ter conseguido identificar-se com a vida e com ele mesmo. Tendo deixado de duvidar e indagar, ele apressa o ritmo e o fluxo da vida. O covarde, ao contrário, tenta reter este fluxo. Nada consegue, é claro, a não ser diminuir ou até mesmo parar o seu próprio fluxo. A vida continua quer as nossas atitudes sejam a de um covarde ou de um herói. A única disciplina que a vida nos impõe é aceitá-la como ela é. Tudo aquilo de que fugimos, a que fechamos os olhos para não ver, tudo o que negamos, desprezamos ou detratamos, acabara servindo apenas para nos derrotar. Aquilo que parece ruim, doloroso e nocivo, pode ser transformado numa fonte de beleza, alegria e incentivo, sempre que encarado de frente, com coragem. Todos os momentos da vida são valiosos para aqueles que sabem e querem reconhecê-los como tal. A vida é o momento presente. Não importa se o mundo está cheio de mortes. A morte só triunfa a serviço da vida.
Henry Miller
Escrito por Mago às 03h53
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INSTRUÇÕES PARA SUBIR UMA ESCADA

Ninguém terá deixado de observar que freqüentemente o chão se dobra de tal maneira que uma parte sobe em ângulo reto com o plano do chão, e logo a parte seguinte se coloca paralela a esse plano, para dar passagem a uma nova perpendicular, comportamento que se repete em espiral ou em linha quebrada até alturas extremamente variáveis. Abaixando-se e pondo a mão esquerda numa das partes verticais, e a direita na horizontal correspondente, fica-se na posse momentânea de um degrau ou de um escalão. Cada um desses degraus, formados, como se vê, por dois elementos, situa-se um pouco mais acima e mais adiante do anterior, princípio que dá sentido à escada, já que qualquer outra combinação produziria formas talvez mais bonitas ou pitorescas, mas incapazes de transportar as pessoas do térreo ao primeiro andar.
As escadas se sobem de frente, pois de costas ou de lado tornam-se particularmente incômodas. A atitude natural consiste em manter-se em pé, os braços dependurados sem esforço, a cabeça erguida, embora não tanto que os olhos deixem de ver os degraus imediatamente superiores ao que se está pisando, a respiração lenta e regular. Para subir uma escada começa-se por levantar aquela parte do corpo situada em baixo à direita, quase sempre envolvida em couro ou camurça e que salvo algumas exceções cabe exatamente no degrau. Colocando no primeiro degrau essa parte, que para simplificar chamaremos pé, recolhesse a parte correspondente do lado esquerdo (também chamada pé, mas que não se deve confundir com o pé já mencionado), e levando-a à altura do pé faz-se que ela continue até colocá-la no segundo degrau, com o que neste descansará o pé. (Os primeiros degraus são os mais difíceis, até se adquirir a coordenação necessária. A coincidência de nomes entre o pé e o pé torna difícil a explicação. Deve-se ter um cuidado especial em não levantar ao mesmo tempo o pé e o pé.)
Chegando-se dessa maneira ao segundo degrau, será suficiente repetir alternadamente os movimentos até chegar ao fim da escada. Pode-se sair dela com facilidade, com um ligeiro golpe de calcanhar que a fixa em seu lugar, do qual não se moverá até o momento da descida.
Julio Cortázar Histórias de Cronópios e de Famas
Escrito por Mago às 03h52
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