EPISÓDIO DO INIMIGO

Tantos anos fugindo e esperando e agora o inimigo estava em minha casa. Da janela o vi subir penosamente pelo áspero caminho do morro. Ajudava-se com um bastão, com o torpe bastão que em suas velhas mãos não podia ser uma arma, e sim um báculo. Custou-me perceber o que esperava: a batida fraca na porta. Fitei, não sem nostalgia, meus manuscritos, o rascunho interrompido e o tratado de Artemidoro sobre os sonhos, livro um tanto anômalo aí, já que não sei grego. Outro dia perdido, pensei. Tive que forcejar com a chave. Temi que o homem desmoronasse, mas deu alguns passos incertos, soltou o bastão, que não voltei a ver, e caiu em minha cama, rendido. Minha ansiedade o imaginara muitas vezes, mas só então notei que se parecia, de modo quase fraternal, com o último retrato de Lincoln. Deviam ser quatro da tarde. Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse. - Pensamos que os anos passam apenas para nós - disse-lhe -, mas passam também para os outros. Aqui nos encontramos, por fim, e o que aconteceu antes não tem sentido. Enquanto eu falava, ele desabotoara o casaco. A mão direita estava no bolso do paletó. Assinalava-me algo e senti que era um revólver. Disse-me então com voz firme: - Para entrar em sua casa, recorri à compaixão. Agora o tenho à minha mercê e não sou misericordioso. Ensaiei algumas palavras. Não sou um homem forte e só as palavras podiam salvar-me. Atinei a dizer: - É verdade que há tempos maltratei um menino, mas você já não é aquele menino nem eu aquele insensato. Além disso, a vingança não é menos fátua e ridícula que o perdão. - Justamente porque já não sou aquele menino - replicou-me - tenho de matá-lo. Não se trata de uma vingança, mas de um ato de justiça. Seus argumentos, Borges, são meros estratagemas de seu terror para que eu não o mate. Você não pode fazer mais nada. - Posso fazer uma coisa - respondi. - O quê? - perguntou-me. - Acordar. E foi o que fiz.
Jorge Luis Borges O Ouro dos Tigres (1972)
Escrito por Mago às 01h07
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FRAGMENTO DE UMA REFLEXÃO CHAPADA

Pois não seria esse o melhor de todos os mundos possíveis? Quando bolhas de sabão flutuam cheias de fumaça de cigarro num bar à meia-noite, naquele instante nebuloso entre a alegria agridoce do encontro de amigos e o aguardado entorpecer da alma? Belos rostos… palavras perdidas sem pesar em meio a música… euforia… tristeza… sobretudo tristeza, numa hora e lugar onde não faz sentido falar dela, embora talvez seja a coisa mais vital do mundo. Sem palavras então… só sensações… rompantes… porque não admirar a beleza de rostos que nunca serão tocados? Olhos inquietos, delirantes, mentes tão mais adaptadas ao absurdo de existir… quase sem raciocínio, reflexão, apenas impulsos, atos, reações, a vida como uma eterna performance, onde o artista se rasga e se despedaça no pesadelo de sua própria obra, tão intrínseca que jamais poderia ser separada do cotidiano. Quem pode julgar uma pessoa assim? Quem pode compreender o absurdo de ser uma contradição viva? Opostos dilacerantes convivendo na mesma mente chapada, sempre em busca do abismo mais profundo. E por que não? Contar com eles, ama-los, toca-los? Isso não é para seres humanos. Deseja-los? Isso sim é possível. Deseja-los desesperadamente! Até sangrar! Não há lugar para suavidades ao se lidar com vidas assim: só há lugar para extremos, obsessões, trepadas ensandecidas seguidas pela solidão de madrugadas insones. E para onde vamos agora? Mais um bar? Mais uma dose? Claro que estamos afim. A noite inevitavelmente vai chegar ao fim… e nós sabemos porque somos assim…
Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago)
Escrito por Mago às 23h35
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