ANTONIN ARTAUD - UM BREVE VISLUMBRE

Antonin Artaud (1896-1948) desde cedo apresentou problemas de saúde e neurológicos. Aos 24 anos começou a tomar tintura de ópio para aliviar dores de cabeça. Tornou-se dependente. Foi internado diversas vezes. Sofreu vários tratamentos para loucura(!). Autor de teatro e cinema, teórico do teatro e autor de peças teatrais, poemas, ensaios, cartas (seu meio de expressão preferido). Artaud questionou e subverteu a noção de LOUCURA em seus textos, como em "Van Gogh: O Suicidado Pela Sociedade". Artaud, o existencialista do desespero. Poetas e críticos afirmam que Artaud ampliou a visão de Rimbaud, do poeta vidente. Um artista francês chegou a afirmar que ARTAUD era a reencarnação de RIMBAUD e seu sucessor espiritual. Artaud foi encontrado morto no quarto de um sanatório onde estava internado. Versões para sua morte: câncer no reto (a oficial), intoxicação com heroína e morfina ou suicídio.
Trecho de Van Gogh: O Suicidado pela Sociedade
"Pode-se falar da boa saúde mental de Van Gogh, que em toda a sua vida apenas assou uma das mãos e, fora isso, limitou-se a cortar a orelha esquerda numa ocasião. Num mundo no qual diariamente comem vagina assada com molho verde ou sexo de recém-nascido flagelado e triturado, assim que sai do sexo materno. E isso não é uma imagem, mas sim um fato abundante e cotidianamente repetido e praticado no mundo todo. E assim é que a vida atual, por mais delirante que possa parecer esta afirmação, mantém sua velha atmosfera de depravação, anarquia, desordem, delírio, perturbação, loucura crônica, inércia burguesa, anomalia psíquica (pois não é o homem, mas sim o mundo que se tornou anormal), proposital desonestidade e notória hipocrisia, absoluto desprezo por tudo que tem uma linguagem e reivindicação de uma ordem inteiramente baseada no cumprimento de uma primitiva injustiça; em suma, de crime organizado. Isso vai mal porque a consciência enferma mostra o máximo interesse, nesse momento, em não recuperar-se da sua enfermidade. Por isso, uma sociedade infecta inventou a psiquiatria, para defender-se das investigações feitas por algumas inteligências extraordinariamente lúcidas, cujas faculdades de adivinhação a incomodavam. E o que é um autêntico louco? É um homem que preferiu ficar louco, no sentido socialmente aceito, em vez de trair uma determinada idéia superior de honra humana. Assim, a sociedade mandou estrangular nos seus manicômios todos aqueles dos quais queria desembaraçar-se ou defender-se porque se recusavam a ser cúmplices em algumas imensas sujeiras. Pois o louco é o homem que a sociedade não quer ouvir e que é impedido de enunciar certas verdades intoleráveis."

"Quem sou eu? De onde venho? Sou Antonin Artaud e basta que eu o diga Como só eu o sei dizer e imediatamente hão de ver meu corpo atual, voar em pedaços e se juntar sob dez mil aspectos diversos. Um novo corpo no qual nunca mais poderão esquecer.
Eu, Antonin Artaud, sou meu filho, meu pai, minha mãe, e eu mesmo. Eu represento Antonin Artaud! Estou sempre morto.
Mas um vivo morto, Um morto vivo. Sou um morto Sempre vivo. A tragédia em cena já não me basta. Quero transportá-la para minha vida.
Eu represento totalmente a minha vida.
Onde as pessoas procuram criar obras de arte, eu pretendo mostrar o meu espírito. Não concebo uma obra de arte dissociada da vida.
Eu, o senhor Antonin Artaud, nascido em Marseille no dia 4 de setembro de 1896, eu sou Satã e eu sou Deus, e pouco me importa a Virgem Maria."

Seleção de poemas e texto de José Luís Gomes
Escrito por Mago às 22h03
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O PESA-NERVOS

O difícil é encontrar de fato o seu lugar e restabelecer a comunicação consigo mesmo. O todo está em certa floculação das coisas, no agrupamento de toda essa pedraria mental em torno de um ponto que falta justamente encontrar. E eu, eis o que penso do pensamento: A INSPIRAÇÃO CERTAMENTE EXISTE. E há um ponto fosforecente onde toda a realidade se reencontra, porém mudada, metamorfoseada - e pelo quê? - um ponto de mágina utilização das coisas. E eu creio nos aerólitos mentais, em cosmogonias individuais.
Toda a escritura é uma porcaria. As pessoas que saem do vago para tentar precisar seja o que for do que se passa em seu pensamento são porcos. Todo o mundo literário é porco, e especialmente o desse tempo. Todos aqueles que têm pontos de referência no espírito, quero dizer, de um certo lado da cabeça, em bem localizados embasamentos de seus cérebros, todos aqueles que são mestres em sua língua, todos aqueles para quem as palavras tem um sentido, todos aqueles para quem existem altitudes na alma, e correntes de pensamento, aqueles que são o espírito da época, e que nomearam essas correntes de pensamento, eu penso em suas tarefas precisas, e nesse rangido de autômato que espalha aos quatro ventos seu espírito, - são porcos. Aqueles para quem certas palavras têm sentido, e certas maneiras de ser, aqueles que mantêm tão bem os modes afetados, aqueles para quem os sentimentos têm classes e que discutem sobre um grau qualquer de suas hilariantes classificações, aqueles que crêem ainda em "termos", aqueles que remoem ideologias que ganham espaço na época, aqueles cujas mulheres falam tão bem e também e que falam das correntes da época, aqueles que crêem ainda numa orientação do espírito, aqueles que seguem caminhos, que agitam nomes, que fazem bradar as páginas dos livros, - são os piores porcos. Você é bem gratuito, moço! Não, eu penso em críticos barbudos. Eu já lhes disse: nada de obras, nada de língua, nada de palavra, nada de espírito, nada. Nada, exceto um belo Pesa-nervos. Uma espécie de estação incompreensível e bem no meio de tudo no espírito. E não esperem que eu lhes nomeie esse tudo, que eu lhes diga em quantas partes ele se divide, que eu lhes diga seu peso, que eu ande, que eu me ponha a discutir sobre esse tudo, e que, discutindo, eu me perca e me ponha assim, sem perceber, a PENSAR - e que ele se ilumine, que ele viva, que ele se enfeite de uma multidão de palavras, todas bem cobertas de sentido, todas diversas, e capazes de expor muito bem todas as atitudes, todas as nuanças de um pensamento muito sensível e penetrante. Ah, esses estados que nunca são nomeados, essas situações eminentes da alma, ah, esses intervalos de espírito, ah, esses minúsculos malogros que são o pão de cada dia de minhas horas, ah, esse povo formigante de dados - são sempre as mesmas palavras que me servem e na verdade eu não pareço mexer muito em meu pensamento, mas eu mexo nele muito mais do que vocês na realidade, barbas de asnos, porcos pertinentes, mestres do falso verbo, arranjadores de retratos, folhetinistas, rasteiros, ervateiros, entomologistas, praga de minha língua. Eu lhes disse que não tenho mais minha língua, mas isto não é razão para que vocês persistam, para que vocês se obstinem na língua. Vamos, eu serei compreendido dentro de dez anos pelas pessoas que farão o que vocês fazem hoje. Então meus gêiseres serão conhecidos, meus gelos serão vistos, o modo de desnaturar meus venenos estará aprendido, meus jogos d'alma estarão descobertos. Então meus cabelos estarão sepultos na cal, todas minhas veias mentais, entào se perceberá meu bestiário e minha mística terá se tornado um chapéu. Então ver-se-á fumegar as junturas das pedras, e arborescentes buquês de olhos mentais se cristalizarão em glossários, então ver-se-ão cair aerólitos de pedra, então ver-se-ão cordas, então se compreenderá a geometria sem espaços, e se aprenderá o que é a configuração do espírito, e se compreenderá como eu perdi o espírito. Então se compreenderá por que meu espírito não está aí, então ver-se-ão todas as línguas estancar, todos os espíritos secar, todas as línguas encorrear, as figuras humanas se achatarão, se desinflarão, como que aspiradas por ventosas secantes, e essa lubrificante membrana continuará a flutuar no ar, esta membrana lubrificante e cáustica, esta membrana de duas espessuras, de múltiplos graus, de um infinito de lagartos, esta melancólica e vítrea membrana, mas tão sensível, tão pertinente também, tão capaz de se multiplicar, de se desdobrar, de se voltar com seu espelhamento de lagartos, de sentidos, de estupefacientes, de irrigações penetrantes e virosas, então tudo isto será considerado certo, e eu não terei mais necessidade de falar.
Antonin Artaud Traduzido por J. Guinsburg no livro Linguagem e Vida, Ed. Perspectiva
Escrito por Mago às 16h58
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ENCRUZILHADA - Trecho

(...) – Então apareceu esse cara de que falei, o tal Mago. Ele procurava por um lugar assim. Um lugar ruim. Infestado. Via isso aqui como terreno fértil para as sementes que queria plantar. Era um caro muito maluco, devia ter uns quarenta anos, mas parecia mais velho. Era magro, alquebrado. Não me lembro dos detalhes da cara dele, mas não posso esquecer os olhos escuros que me encaravam quando conversamos uma vez no Sujinho’s bar. Ele não bebia e nem usava drogas, mas adorava a companhia de drogados. Parecia ter prazer em conversar com alguém totalmente chapado. E ele era bom de conversa, você simplesmente não conseguia deixar de prestar atenção. Ele me contou muitas coisas. Eu esqueci boa parte, pois estava muito chapado, mas lembro de que me falou sobre coisas como universos paralelos, outras dimensões, céu, inferno, anjos e demônios.
– “Essas coisas existem, meu caro Normando” dizia ele “Demônios são reais, anjos são reais, mas não são nada como aquilo que você imagina, esqueça a Bíblia e todas aquelas baboseiras católicas. Eu falo de mitos e lendas muito mais antigos do que o próprio papa sonha, mais antigos do que nossa civilização, mais antigos do que a raça humana”. Ele me falou sobre como essas entidades vivem entre nós, muito próximas de nós, porém em outros planos e dimensões, invisíveis, porém presentes, sempre presentes. Elas afetam nossas vidas, alimentam-se de nossas emoções, conhecem segredos insondáveis sobre os grandes mistérios que sempre atormentaram a alma humana.
– Ele me disse que existem lugares que servem como passagens para as outras dimensões. Lugares que permitem ver e entrever outros mundos e realidades. Lugares marcados pela intensidade e poder dos extremos das emoções humanas. Pontos do espaço onde as leis da física não têm validade, onde ângulos e perspectivas que jamais poderiam existir, de fato existem. Ele me disse, por fim, que tinha encontrado um desses lugares. (...)
Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago) Trecho da novela Encruzilhada Versão completa disponível no site A Garganta da Serpente, seção Contos de Coral Capa do artista plástico José Roberto Sechi

Escrito por Mago às 22h14
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O SEGUNDO ADVENTO

Girando e girando no círculo que se alarga O falcão não pode ouvir o falcoeiro; Coisas despedaçam-se; o centro não se mantém Mera anarquia se espalha sobre o mundo, A maré de sangue é solta, e em toda parte A cerimônia da inocência é afogada; Aos melhores falta qualquer convicção, enquanto os piores Estão cheios de intensidade apaixonada.
Certamente alguma revelação está próxima; Certamente o Segundo Advento está próximo. O Segundo Advento! Mal essas palavras são proferidas Quando uma vasta imagem vinda do Spiritus Mundi Dificulta minha visão: em algum lugar nas areias do deserto Uma forma com corpo de leão e cabeça de homem, Um olhar vazio e impiedoso como o Sol, Move suas lentas coxas, enquanto ao seu redor Oscilam sombras de indignados pássaros do deserto. A escuridão cai novamente; mas agora eu sei Que vinte séculos de sono profundo Irromperam-se em pesadelo por um berço oscilante, E qual besta bruta, sua hora finalmente chegada, Arrasta-se em direção a Belém para nascer?
W. B. Yeats
Escrito por Mago às 16h04
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CORAÇÃO DE FEL

No deserto, Vi uma criatura, nua, bestial, Que, agachada no chão, Tinha nas mãos o coração, E dele comia... Perguntei, "Está gostoso, amigo?" "Está amargo - muito amargo", ele respondeu, "Mas gosto disso Porque é amargo E porque é meu coração".
Stephen Crane
Escrito por Mago às 03h06
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FÁBULA PERVERSA

Certa vez, um incêndio terrível devastava a floresta levando ao pânico todos os animais. Num êxodo frenético, os seres da mata lançavam-se ao rio para alcançar a segurança na outra margem. Imponente, um tigre permanecia impassível entre as águas turbulentas e o brilho fantasmagórico das chamas, desafiando orgulhosamente o calor e a morte à espera do último momento antes da inevitável fuga. Um sibilar repentino fez o felino estacar, apreensivo... um dos poucos sons em toda a criação que conseguia infligir-lhe medo. "Quem está aí?" rugiu ele, imperioso. A serpente surgiu lentamente, emergindo de um buraco na relva. Aproximou-se cautelosa, evitando encarar o tigre nos olhos. "Eu peço uma audiência, meu senhor, com todo o respeito que lhe é devido..." sibilou ela. O tigre franziu o sobrolho, mas não recuou. Após uma breve pausa dirigiu-se a serpente: "Minha senhora, meus respeitos... já não deverias, a muito, ter abandonado essas paragens em busca de segurança?" "De fato, meu senhor", respondeu a serpente, "Mas não possuo entre meus dons a capacidade de enfrentar a violência das correntezas. Se adentrar o rio certamente serei arrastada pelas águas e morrerei. Humildemente, meu senhor, eu lhe peço que me carregue em suas costas quando atravessares o rio para que eu também escape das chamas em margens seguras". O Tigre encarou a serpente, desconfiado: "Julga-me algum tolo, minha senhora? Suas presas gotejam veneno. Se me picares quando estiver repousando sobre meu pescoço meu fim será certo." "Admito que minha reputação é preocupante, meu senhor" retrucou a serpente, "Mas, com todo o respeito, não há razão para que tenhas medo de mim. Se eu fizer o que temes acompanhar-te-ei para as profundezas do rio. Tua morte me levará à morte também. Não haveria lógica em tal ato, não haveria sentido, minha existência depende de ti, pois se ficar aqui morrerei. Isso não é o bastante para se sentires seguro em me ajudar?" O tigre refletiu e achou aceitáveis as palavras da serpente. Decidido a ser magnânimo, permitiu-lhe que subisse suas costas e enlaçasse seu pescoço. Depois mergulhou nas águas torrenciais, tomando o cuidado de manter a serpente na superfície. Quando estava na metade da travessia, uma fisgada súbita o surpreendeu, uma dor aguda, um torpor pestilento, agonia, seus membros amoleceram, os dentes trincaram num espasmo horrendo... a serpente cravara suas presas peçonhentas diretamente em sua jugular. "Maldita, maldita", urrou o tigre em seu desespero de morte, "Por que fizeste isso? Irás perecer comigo!" E a última coisa que o tigre ouviu antes de desaparecer para sempre nas profundezas do rio foi o sibilar da serpente sussurrando em seus ouvidos: "Eu sei... eu sei... me perdoe, não pude evitar... é de minha natureza."
Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago) Inspirado numa narrativa oral

Escrito por Mago às 03h14
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