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IMPROVISO DE OHIO - Samuel Beckett

O - Ouvinte
L - Leitor

Tão semelhantes quanto possível.
Única parte iluminada, no centro do palco: uma mesa comum de pinho, de dois metros por um, aproximadamente.
Duas cadeiras do mesmo tipo, de pinho, sem apoio para os braços.

O: sentado de frente na extremidade do lado comprido da mesa, à direita (com relação à sala). Cabeça inclinada, apoiada na mão direita. Mão esquerda sobre a mesa. Longo casaco negro. Longos cabelos brancos.
L: sentado de perfil no meio do lado curto, à direita. Cabeça inclinada apoiada sobre a mão direita. Mão esquerda sobre a mesa. Diante dele, sobre a mesa, um livro aberto nas últimas páginas. Longo casaco negro. Longos cabelos brancos.

No centro da mesa, um chapéu grande de feltro negro com abas largas.
Aumentar lentamente a iluminação.
Dez segundos.
L vira a página.
Pausa.

L: (lendo) Resta pouco a dizer. Numa última -
O bate com a mão esquerda sobre a mesa (Batida)
Resta pouco a dizer.
Pausa. Batida.
Numa última tentativa de sofrer menos, ele deixou o lugar em que tinham estado juntos por tanto tempo e se instalou num único cômodo, na outra margem. Pela única janela ele avistava rio abaixo a extremidade da Ilha dos Cisnes.
Pausa.
Para sofrer menos ele tinha apostado na estranheza. Cômodo estranho. Cena estranha. Sair para onde nada nunca partilhado. Entrar onde nada nunca partilhado. Foi nisso que ele apostou um pouco, para sofrer menos.
Pausa.
Dia após dia viam-no percorrer, a passos lentos, a ilhota. Hora após hora. Vestido com seu longo casaco negro, fizesse frio ou calor, e usando um antigo chapéu de artista. Na ponta, ele parava sempre para contemplar a água que se afastava. Como em alegres rodamoinhos, os dois braços confluíam e refluíam unidos. Depois, a passos lentos, voltava.
Pausa.
Em seus sonhos -
Batida.
Depois, a passos lentos, voltava.
Pausa. Batida.
Em seus sonhos ele tinha sido prevenido contra essa mudança. Tinha visto o rosto querido e ouvido as palavras mudas. Fica onde por tanto tempo fomos dois a sós, minha sombra te consolará.
Pausa.
Podia ele -
Batida.
Visto o rosto querido e ouvido as palavras mudas, Fica onde por tanto tempo fomos dois a sós, minha sombra te consolará.
Pausa. Batida
Podia ele agora voltar atrás? Reconhecer seu erro e voltar para onde outrora por tanto tempo eles foram dois a sós? Dois a sós tudo partilharam. Não. O que ele fizera sozinho não podia ser desfeito. Nada do que fizera sozinho poderia nunca ser desfeito. Por ele a sós.
Pausa.
Nesse extremo seu velho terror da noite voltou. Tanto tempo depois, como se nunca fora.
Pausa. Ele olha mais de perto.
Sim, tanto tempo depois, como se nunca fora. Redobrados agora os terríveis sintomas descritos ao longo da página quarenta, parágrafo quatro.
Ele quer buscar o trecho. Com a mão esquerda, O o detém. Ele retoma a página abandonada.
Noites em claro, doravante seu quinhão. Como quando seu coração era jovem. Não dormir mais, não ousar mais dormir antes do -
Ele vira a página.

- raiar do dia.
Pausa.
Resta pouco a dizer. Uma noite -
Batida.
Resta pouco a dizer.
Pausa. Batida.
Uma noite em que estava sentado tremendo com a cabeça entre as mãos, um homem apareceu diante dele e lhe disse, Fui mandado por - e nomeou o nome querido - a fim de te consolar. Depois, do bolso de seu longo casaco negro, tirou um velho livro e leu até o raiar do dia. Desapareceu em seguida sem uma palavra.
Pausa.
Algum tempo depois ele reapareceu à mesma hora com o mesmo livro e desta vez sem preâmbulo sentou-se e leu-o até o fim durante toda a longa noite. Desapareceu em seguida sem uma palavra.
Pausa.
Assim de tempo em tempo de improviso ele reaparecia para reler até o fim a triste história e adormecer a longa noite. Depois desaparecia sem uma palavra.
Pausa.
Sem jamais trocar uma única palavra eles se tornaram como que um só.
Pausa.
Veio enfim a noite em que fechado o livro aos primeiros raios de luz ele não desapareceu mas ficou sentado sem uma palavra.
Pausa.
Finalmente ele disse, Fui avisado - e nomeou o nome querido - de que não voltaria mais. Vi o rosto querido e ouvi as palavras mudas, Não precisas mais ir ter com ele, mesmo que tivesses esse poder.
Pausa.
Assim a triste -
Batida.
Vi o rosto querido e ouvi as palavras mudas, Não precisas mais ir ter com ele, mesmo que tivesses esse poder.
Pausa. Batida.
Assim a triste história uma última vez redita, ficaram sentados como se fossem de pedra. Pela única janela a madrugada não vertia nenhuma luz. Da rua nenhum ruído de ressurreição. A menos que, abismados em sabe-se lá que pensamentos, eles estivessem insensíveis. À luz do dia. Ao ruído de ressurreição. Que pensamentos, quem sabe. Pensamentos não, não pensamentos. Abismos de consciência. Abismados em sabe-se lá que abismos de consciência. De inconsciência. Lá onde nenhuma luz pode chegar. Nenhum ruído. Assim ficaram sentados como se fossem de pedra. A triste história uma última vez redita.
Pausa.
Não resta nada a dizer.
Pausa. Ele quer fechar o livro.
Batida. Livro ainda entreaberto.
Não resta nada a dizer.
Pausa. Ele fecha o livro.
Batida.
Silêncio. Cinco segundos.
Juntos eles põem a mão direita sobre a mesa, levantam a cabeça e se olham. Fixamente. Sem expressão.
Dez segundos.
Apagar lentamente a iluminação.

Improviso de Ohio - Montagem realizada no Espaço 2 Arte Café de Londrina-PR, em 18 de Setembro de 2004.
Texto de Samuel Beckett - Tradução de Leyla Perrone Moisés
Com Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago) e Nuno Theodoro
Sonoplastia, Iluminação e Maquilagem: Regiane Teixeira Barbosa e Francine Soares

 



 Escrito por Mago às 19h49
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FOGO SURDO


Sim, mas quem nos curará do fogo surdo, do fogo sem cor que corre ao anoitecer pela Rue de la Huchette, saindo dos portais carcomidos, dos pequenos vestíbulos, do fogo sem imagem que lambe as pedras e espreita no vão das portas, como faremos para nos lavar de sua queimadura doce, que persiste, que se aloja para durar, aliada ao tempo e à recordação, às substâncias pegajosas que nos retém desse lado, e que nos queimará docemente até nos calcinar? Então é melhor compactuar como os gatos e os musgos, travar amizade imediata com as porteiras de roucas vozes, com as criaturas pálidas e sofredoras que vigiam às janelas, brincando com um ramo seco. Ardendo assim, sem tréguas, suportando a queimadura central que avança como a madurez paulatina no fruto, ser o pulso de uma fogueira neste emaranhado de pedra interminável, caminhar pelas noites da nossa vida com a obediência do sangue no seu cego circuito.


Julio Cortázar
O Jogo da Amarelinha - Capitulo 73



 Escrito por Mago às 17h57
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