COMPOSIÇÃO

Duas mulheres juntas Formam desenhos dúbios.
Se numa só há tantas As duas serão quantas?
Uma na outra transforma E misturando as formas
No mesmo luar as banho, Metamorfoses sonho.
Todas parecem uma A quem a todas ama. Dante Milano

Escrito por Mago às 13h40
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UM DUELO COM O SOLENE ATO DE VIVER
"Somos conduzidos para um mundo de poesia impossível de descrever com palavras"

"Sempre que começo o Butoh, sinto uma hesitação, por não saber por onde começar.
Mesmo quando pensamos sobre o que é "viver", vemos que normalmente o Butoh se processa num inter-relacionamento de duas atitudes, aparentemente opostas, que coexistem: a humanitarista, baseada em amor profundo e altos ideais; a realista, fundamentada nos desejos e necessidades mais diretas. Penso que o Butoh não teria existência própria, se o separássemos do ato de viver. Mas, por mais que se diga isso, não consigo deixar de hesitar todas as vezes que deparo com a questão: por onde começar? Começo sem sentir que essa hesitação significaria negar, sob um aspecto, o viver. Só posso concluir que é exatamente nesse processo denso da vida e nas situações de hesitação está o real começar do Butoh.
O Butoh começa nos movimentos cotidianos do corpo. Quando aparece alguém querendo fazer Butoh, sempre digo que isso levaria pelo menos cinco anos. Durante esse período, o aprendizado se realiza embasado não se sabe se na constante conscientização da análise e síntese dos movimentos do próprio corpo ou se no aprofundamento do conhecimento sobre o processo de viver, se em nenhum dos dois ou em ambos.
A sabedoria de viver, o respeito à vida, tanto de si como a de outros, o reconhecimento da Natureza, são temas que vão surgindo no processo do aprendizado. As dores de uma existência ou então os seus prazeres, os sofrimentos que marcam as nossas próprias vidas, as dádivas da Natureza e a sua destruição são para mim, fenômenos especialmente caros.
Os ferimentos que recebemos nos nossos corpos cicatrizam e se curam com o tempo. Os ferimentos que recebemos no nosso âmago, se aceitos e contemporizados, farão nascer, ao longo dos anos e das experiências, alegrias ou tristeza que, um dia, nos conduzirão para um mundo de poesia, impossível de expressar por palavras, só por meio do nosso próprio corpo.
Em matéria de se ensinar o Butoh, existem coisas que podem ser ensinadas e outras que não. Suponhamos que estivéssemos conduzindo lições/aulas com o tema "Pai Nosso".
Cada um de vocês tentaria expressar, através do corpo, todos os movimentos que o tema lhes inspiraria. E eu os compreenderia todos, por menores que fossem. Mas o problema começaria dali em diante.
Para mim, dançar com o único objetivo de fazer os outros entenderem as imagens que o tema evoca é apenas uma questão anterior ao Butoh; o problema se encontra daí para frente.
O importante é sua postura diante da vida e de sentimentos que decorrerem do processo vivencial, contidos nas verdades do "Pai Nosso". Além disso, a seriedade do viver e de como vocês vão se confrontar com esse problema, constitui o aspecto mais importante. E sobre isso nada posso lhes ensinar. É preciso que cada um de vocês façam uma reflexão. Na minha opinião, vocês devem estar procurando no Butoh uma oportunidade para travar um duelo consciente com o solene ato de viver.
Disse-lhes, antes, que levaria pelo menos cinco anos para aprender o Butoh. Nos simples movimentos que se ensinam nestes primeiros anos e também nos procedimentos do dia-a-dia já se incluem, com certeza, essas coisas que lhes disse, que são impossíveis de se ensinar e de se descrever por palavras."
Kazuo Ohno Fonte (texto e imagens): Ogawa Butoh Center
Escrito por Mago às 14h50
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ENTREVISTA COM KAZUO OHNO

Mário Kodama / International Press - O que é o butoh para o senhor?
Kazuo Ohno - É uma pergunta difícil de responder. Cada dançarino tem seu próprio butoh. Não existe um método, porque a dança é a expressão do interior de cada um. Por isso é singular em cada pessoa. Para mim, o butoh é, com palavras simples, apreciar a vida, minha e dos outros.
International Press - O senhor teve alguma influência da dança ocidental?
Ohno - Posso dizer que tive influência do balé clássico depois de Isadora Duncan (1878-1910), que tirou as sapatilhas e começou a dança livre, rompendo com as formas do balé; também de Mary Wigman (1886-1973), que pertenceu à dança de vanguarda alemã dos anos 30 e uma das criadoras do expressionismo na Alemanha. A dança de Wigman era completamente diferente do balé e da dança de Duncan. Era uma dança que nasce no interior, na intimidade do ser humano.
International Press - Onde o senhor aprendeu a dançar?
Ohno - No último ano da faculdade, em janeiro de 1929, fui assistir à apresentação da dançarina espanhola Antonia Mêrce no Teatro Imperial, em Tóquio. Fiquei muito emocionado. Tive a impressão que era a dança da Gênese, da criação. Não sei outra maneira de explicar a sua arte. E, 50 anos depois, eu fiz a primeira apresentação de "La Argentina", baseada nessas memórias. Ao me formar pela faculdade de educação física Nihon Taiikukai Taisoo Gakko (atual Nihon Taiiku Daigaku), lecionei cinco anos no colégio Kantoo Gakuin em Yokohama, só para homens. Saí posteriormente para fazer um curso de dança de Baku Ishii para conseguir emprego em um colégio feminino e ensinar ginástica ritmica, mas também não achava muita graça nisso. Sentia a falta de emoção. Queria aprender e ensinar dança artística. Queria fazer a dança que expressasse sentimentos humanos, amor alegria, coisas da vida, natureza, universo. Comecei a aprender dança moderna no estúdio de Takaya Eguchi, que estudou na escola Wigman, em Berlim. Só em 1949, com 43 anos, fiz a minha primeira apresentação solo.
International Press - Como o senhor conheceu Tatsumi Hijikata (um dos mestres que, com Kazuo e Min Tanaka, criaram o butoh nos anos 60)?
Ohno - Ele assistia às minhas apresentações e um dia veio me visitar. Foi assim que nos conhecemos. Meu filho Yoshito começou a carreira com Hijikata na peça "Kinjiki" , baseada na obra de Yukio Mishima , em 1959 , que chocou o público e o mundo da dança do Japão daquela época.
International Press - E como surgiu o butoh?
Ohno - Penso que meu butoh nasceu como o ser humano nasce do corpo da mãe , e aconteceu no momento em que interpretei a personagem Divina da obra "Nossa Senhora das Flores" (de Jean Genet) , em julho de 1960. Nesse instante a minha vida brotou da escuridão e brilhou em cinco cores. Esta foi nossa (dele e de Hijikata) primeira apresentação e começamos a trabalhar juntos. Mas as primeiras apresentações que fizemos tinha mais as características de Hijikata.
International Press - Como foi o processo de transformação que o senhor sofreu até chegar ao butoh?
Ohno - Eu penso que há algo em comum entre a energia de nascimento de uma vida e a do nascimento do Universo. Existe uma força centrípeta entre mãe e filho , como entre o Sol e os planetas do sistema Solar. Tudo o que existe nesse mundo é ligado profundamente com o Universo. Mas a dança moderna não incluia esses fenômenos básicos da natureza , as relações entre ser humano , morte, vida , amor, universo, natureza e outros temas essenciais , nem o expressionismo alemão. O envolvimento com estas questões foram nossos mestres e crescemos com elas. É isto que expresso no meu butoh.
International Press - Está havendo uma renovação na dança moderna japonesa?
Ohno - Não tenho conhecimento de que alguém esteja fazendo algo realmente novo. Há muita gente que procura chamar a atenção só por ser esquisito , excêntrico. Mas não conheço ninguém que trate das questões filosóficas essenciais como as que eu trato. Talvez eu seja o único que as tento expressar. Não adianta pensar com a mente como é que se deve viver. A vida tem que ser descoberta no dia-dia O que apresento no meu butoh é tudo que eu vivo na minha vida. Premeditar as coisas nem sempre dá certo. Por exemplo , guerras , devastação do meio ambiente são feitas pelas pessoas que planejam demais. Acho que nós devemos dar mais importância aos sentimentos e respeitá-los.
International Press - Quantas vezes o senhor foi ao Brasil? E o que achou?
Ohno - Já fui duas ou três vezes. Pode ser que volte de novo no ano que vem. Brasileiros são assim (ele uniu os braços num forte aperto de mãos). Eles me trataram muito bem. Em qualquer lugar que eu ia , sempre ficava cercado por muita gente. Fiquei impressionado pela minha popularidade no Brasil. Vi matérias sobre mim na capa dos jornais. Quando fui assistir à apresentação de "Macunaíma" (peça de Antunes Filho baseada no texto homônino de Mário de Andrade) , eles souberam que eu estava lá e me convidaram para subir ao palco , e dancei com improvisação. Muitas pessoas organizaram festas para mim , inclusive o embaixador francês no Brasil.
Jornal : International Press Entrevista de Mário Kodama ; intérprete, Kunihiro Otsuka Seção : Lazer e Cultura - Página 5-B Japão , 24 de setembro de 1995. Entrevista gentilmente enviada por Bianca Zanchetta Xavier de Mendonça (Obrigado, Bi!!!)
Escrito por Mago às 14h40
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SUPERFÍCIE IMACULADA

Sentou e encarou friamente a folha de papel em branco. Sereno na aparência, em seu íntimo sentia-se como um náufrago abandonado à décadas numa ilha rochosa, sem o menor contato com seres humanos. Ansiando.
O papel branco o encarava de volta, desafiando-o a macular sua fria homogeneidade. Parecia impossível. Fazia tanto tempo... tanto tempo que era quase inimaginável que uma gota sequer de tinta quebrasse a serenidade daquela superfície que parecia disposta a absorver sua alma como um vampiro espiritual. Foram tantas vezes que estivera sentado antes, na mesma posição, obrigando-se sem sucesso a romper o desagradável impasse entre si mesmo e o papel. Um sentimento de aflição formava-se em seu estômago. As vezes sentia-se mal. Como um homem que se vê incapaz de vomitar o alimento apodrecido que envenena seu sangue e entorpece a sua mente. Sentia vontade de gritar, amaldiçoar, rasgar, derrubar a mesa, despedaça-la, se matar, matar alguém, qualquer um...
Ele encarava a superfície vazia. A superfície vazia o encarava. Ele pensava em espelhos. Tinha medo de espelhos. Sempre teve. Não conseguia compreender por que as pessoas não compartilhavam desse medo. Provavelmente porque ninguém olhava para um espelho por tempo bastante para perceber o seu terrível fascínio... seu sagrado horror. As pessoas olhavam para espelhos apenas para satisfazer necessidades práticas e imediatas: pentear o cabelo, aprovar uma vestimenta, conferir os deslizes do peso, tomar consciência do que os outros viam em si, coisas assim. Narcisistas gastavam mais de seu tempo a fita-los, claro, mas distraídos demais por seu objeto de desejo para perceberem alguma coisa.
Não. Nunca conhecera ninguém que compartilhava seu horror a espelhos. Apenas ele percebia o quanto eram perturbadores. Procurava evitar os espelhos ou apresar-se diante deles, satisfazendo suas necessidades práticas, como todo mundo, rapidamente, antes que aqueles olhos o apanhassem. Quando tal acontecia, permanecia minutos intermináveis encarando aqueles olhos profundos, aquele rosto perplexo e vazio, a face daquele estranho que o surpreendia em seus momentos de privacidade, estudando-o como a uma coisa alienígena. Aquela face terrível que o assustava por ser tão transparente, tão legível, porém indizível, inenarrável. Ele compreendia aquele estranho, mas não conseguia explica-lo, traduzi-lo. Isso o amedrontava. Isso o enlouquecia. Odiava os espelhos e sua maldita redundância. Odiava ver aquela face que - ele sabia - também podia vê-lo... e vice versa, até o infinito. Ele sabia que quando se repete uma palavra muitas e muitas vezes, ela perde o seu significado, torna-se apenas um conjunto de sons, significando nada... vazio. E, por mais furtivamente que espiasse aquele estranho, sempre o surpreendia fitando-o direto nos olhos.
O papel era como um espelho. O branco era como um reflexo. A sensação de mau estar e terror era análoga. Sentia-se tão mal. Tinha tanto para dizer. Havia tanta coisa apodrecida dentro de si que queria... que precisava vomitar, mas não conseguia. Era tudo tão intraduzível. As palavras eram insuficientes, inadequadas. Como dizer o que é indizível? Quais símbolos seriam apropriados? Por onde começar? Deveria escrever um poema? Contar uma história? Desenhar? Cuspir sobre o papel? Qualquer coisa era melhor do que suportar por um momento mais aquela folha branca e sua silenciosa zombaria. O estranho estava ali, a sua frente, ele sabia tudo sobre ele, o compreendia, tudo o que precisava era dizer alguma coisa, escrever alguma coisa, algo que alguém pudesse ler para compreender também. Ele tinha coisas dentro de si que precisavam ser compartilhadas. Tinha que conseguir colocar algo pra fora, qualquer coisa, mesmo que fosse pequena. Uma simples parcela do todo que o torturava já seria algum alívio. Precisava escrever algo ou acabaria enlouquecendo.
Foi então que algo lhe ocorreu: Se não sabia sobre o que escrever, por que não escrever sobre não conseguir escrever? Por que não explicar aquilo que compreendia tão bem? Permitir que outros tivessem acesso ao que, para ele, era muito mais profundo e terrível do que o pior dos pesadelos? O silencioso duelo entre o homem e o papel em branco, quando parece impossível lembrar sequer uma palavra que dê início a uma torrente, imaginar uma personagem em que se possa acreditar, uma idéia concreta que possa ser explicada, uma única história que já não tenha sido contada.
E foi assim que, quase com desdém, tocou com a ponta da caneta a superfície imaculada e começou:
Sentou e encarou friamente a folha de papel em branco. Sereno na aparência, em seu íntimo sentia-se como um náufrago abandonado à décadas numa...
Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago)
Escrito por Mago às 19h12
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NÓS

(A Hilda ten Brink)
Eu e tu: a existência repartida Por duas almas; duas almas numa Só existência. Tu e eu: a vida De duas vidas que uma só resuma.
Vida de dois, em cada um vivida, Vida de um só vivida em dois; em suma: A essência unida à essência, sem que alguma Perca o ser una, sendo à outra unida.
Duplo egoísmo altruísta, a cujo enleio No próprio coração cada qual sente A chama que em si nutre o incêndio alheio.
O mistério do amor onipotente, Que eternamente eu viva no teu seio, E vivas no meu eternamente.
Silva Ramos
Escrito por Mago às 19h57
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PEQUENO MAPA DO TEMPO
 Eu tenho medo e medo está por fora O medo anda por dentro do meu coração Eu tenho medo de que chegue a hora Em que eu precise entrar no avião
Eu tenho medo de abrir a porta Que dá pro sertão da minha solidão Apertar o botão: cidade morta Placa torta indicando a contramão Faca de ponta e meu punhal que corta E o fantasma escondido no porão
Medo
Medo
Medo medo medo
Medo
Eu tenho medo de Belo Horizonte Eu tenho medo de Minas Gerais Eu tenho medo que Natal Vitória Eu tenho medo Goiânia Goiás Eu tenho medo Salvador Bahia Eu tenho medo Belém do Pará
Eu tenho medo Pai, Filho, Espírito Santo São Paulo Eu tenho medo eu tenho C eu digo A Eu tenho medo um Rio, um Porto Alegre, um Recife Eu tenho medo Paraíba, medo Paranapá
Eu tenho medo estrela do norte, paixão, morte é certeza Medo Fortaleza, medo Ceará
Medo
Medo
Medo medo medo
Medo
Eu tenho medo e já aconteceu Eu tenho medo e inda está por vir Morre o meu medo e isto não é segredo Eu mando buscar outro lá no Piauí
Medo, o meu boi morreu, o que será de mim? Manda buscar outro, maninha, lá no Piauí
Medo, o meu boi morreu, o que será de mim? Manda buscar outro, maninha, lá no Piauí
Belchior
Escrito por Mago às 19h52
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DIÁLOGO SOBRE UM DIÁLOGO

Entretidos em discutir a morte, anoiteceu e não acendemos a luz.
Não víamos o rosto um do outro. Com doçura e sem fervor, a voz de Macedonio Fernandez repetia que a alma é imortal. Garantia que a morte não é nada. Morrer tinha que ser o menos importante que pode acontecer a um homem. Eu, Jorge Luis Borges, brincava com a navalha de Macedonio: abria e fechava. Um acordeom, numa casa vizinha, despachava "la cumparsita", essa choradeira infinita e consternada de que muita gente gosta porque inventaram que é velha. Então, para podermos continuar discutindo em paz a imortalidade, propus a Macedonio que nos suicidássemos.
Francamente, não lembro se nos suicidamos naquela noite.
Jorge Luis Borges Traduzido e adaptado por Gregório Bacic
Escrito por Mago às 16h39
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FIM DE PARTIDA - Trecho

Um dia você ficará cego como eu.
Estará sentado num lugar qualquer, pequeno ponto perdido no nada, para sempre, no escuro, como eu.
Um dia você dirá, estou cansado, vou me sentar, e sentará.
Então você dirá, tenho fome, vou me levantar e conseguir o que comer. Mas você não levantará.
E você dirá, fiz mal em sentar, mas já que sentei, ficarei sentado mais um pouco, depois levanto e busco o que comer. Mas você não levantará e nem conseguirá o que comer.
Ficará um tempo olhando a parede, então você dirá, vou fechar os olhos, cochilar talvez, depois vou me sentir melhor, e você os fechará.
E quando reabrir os olhos, não haverá mais parede. Estará rodeado pelo vazio do infinito, nem todos os mortos de todos os tempos, ainda que ressucitassem, o preencheriam, e então você será como um pedregulho perdido na estepe.
Samuel Beckett Fim de Partida
Escrito por Mago às 20h37
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LEITORES: UMA ESPÉCIE EM EXTINÇÃO ?

Você gosta de ler? Gosta mesmo, sente prazer com a leitura? Talvez seja uma pergunta idiota, afinal se você está lendo isso é provável que goste de ler, a maioria das pessoas sequer começa a ler um post com mais de dez linhas. Então, amigo, vamos conversar um pouco sobre essa categoria da qual eu e você fazemos parte e que está em vias de extinção: os leitores.
Nos últimos meses tenho ficado atento aos rankings dos dez livros mais vendidos. Apesar das variações dependendo dos modismos, é possível constatar um padrão nessas listas fornecidas por livrarias e editoras. No geral, os livros mais vendidos podem ser divididos em três tipos: 1.º: auto-ajuda e seus variantes (o poder do pensamento positivo, como vencer na vida sem fazer força, como salvar seu casamento, etc.); 2.º: evangélicos ou esotéricos (inclui Paulo Coelho, Og Mandino, etc.) e 3.º: técnicos e científicos (importantes para as atividades profissionais e intelectuais do leitor). Ocasionalmente, um romance ou livro de contos aparece no ranking mas, quase sempre, é devido a alguma moda passageira.
Percebe um padrão? Veja bem: o leitor de livros de auto-ajuda espera encontrar maneiras de melhorar sua vida chata e maçante, procura respostas para as angústias do dia a dia. Quer manuais que ensinem como viver (quase sempre se frustram, mas essa é outra história). Os leitores de livros esotéricos e evangélicos buscam coisas semelhantes, mas através da religiosidade, da espiritualidade, um (re)encontro com o divino, uma vida mais plena através do misticismo e da religião (uma busca igualmente decepcionante devido a enorme quantidade de charlatões querendo enriquecer com falcatruas místicas). Os leitores da terceira categoria, por fim, querem aperfeiçoar-se profissionalmente e, desse modo, aumentar seus rendimentos e "vencer na vida" em nosso mundo tão competitivo.
Acho que agora o padrão tornou-se evidente: os livros mais lidos são aqueles que têm utilidade prática (ou, ao menos, propõem-se a isso), ou seja, oferecem algum retorno ao leitor pelo "esforço" de os ler. Uma recompensa. Vida melhor, espiritualidade aprimorada, mais dinheiro, mais fé, mais amor. Tais livros são vistos, implicitamente, como investimentos de médio prazo. Paga-se por eles, gasta-se tempo e "incômodo" na sua leitura e espera-se que o investimento dê lucro. A idéia de ler um livro por prazer, pura e simplesmente, é inconcebível para a grande maioria. Leitura é estudo ou trabalho, algo que se faz por obrigação, nunca por prazer.
Existem muitos motivos para isso. Pra começo de conversa, é óbvio que o cinema e a TV são muito mais fáceis de digerir do que qualquer livro, afinal a imagem produz uma comunicação imediata, sem esforço aparente. Já o livro exige, no mínimo, que o leitor decodifique o texto ali contido e o reconstitua em imagens dentro de sua mente. O problema é que, no atual estado da educação brasileira, as pessoas saem da escola como meros analfabetos funcionais: sabendo ler e escrever, mas só o suficiente para lerem um manual de instruções, legendas de um filme estrangeiro ou preencherem formulários, pouco ou nada além disso.
Pra piorar, a leitura é amplamente desestimulada pela mídia que, incessantemente, nos bombardeia com estímulos visuais muito mais chamativos e hipnóticos do que um texto escrito, gerando uma espécie de cultura da ignorância que, a todo momento, parece justificar o semi-analfabetismo como algo normal e até desejável. As pessoas não mais se sentem inferiores por não conseguir ler um livro. Ao contrário, gabam-se de não ter paciência ou tempo para leitura, assistem apenas os filmes da moda, não perdem a novela por nada, e riem daqueles que ainda têm a capacidade de se encantar com uma história bem escrita, rotulando-os de nerds e cdf's. Certa vez, um colega me viu com o livro Parque dos Dinossauros, de Michael Crichton. Ele me perguntou por que eu perdia tempo com aquilo, afinal havia o filme. Respondi: "Já assisti o filme, mas o livro é muito mais interessante". Com um sorriso irônico, ele pegou o livro, folheou e, com ar de soberba, disse: "Não vejo nenhum dinossauro aqui", e ainda riu, o estúpido!
Felizmente, nem tudo está perdido. De um modo ou de outro o gosto pela leitura ressurge sob várias formas diferentes. Ao contrário dos que se limitam às auto-ajudas e congêneres, os leitores de Histórias em Quadrinhos não têm a menor dúvida de que sentem prazer em ler. Bem como os fãs do jovem bruxo Harry Potter, um grande mérito da escritora J. K. Rowling que conseguiu uma proeza que muitos julgariam inalcançável: levar crianças e jovens e ler romances de mais de 400 páginas por puro prazer e ainda ansiarem pelos próximos capítulos da saga do bruxinho. É certo que Hollywood não perdeu tempo para produzir um filme, seguindo aquela velha fórmula de tornar a literatura mais facilmente assimilável para o "público médio" e faturar com isso. Mas o fã sabe muito bem qual Harry Potter é o melhor. Bem como os leitores do grande clássico da literatura inglesa, O Senhor dos Anéis, que sabem que mesmo um ótimo filme não se compara a um romance bem escrito.
Ainda falta muito para termos uma sociedade de leitores, no sentido pleno da palavra, que saibam usar a imaginação e o senso crítico, tanto para desvendar um livro como para "ler" a realidade que nos cerca. Mas, pouco a pouco, crianças e jovens vão descobrindo na literatura um universo cheio de possibilidades. Mesmo quando começam com coisas como Sidney Sheldon ou Danielle Steel, o que importa é que leiam por prazer e procurem por mais.
Ei! Você leu o post todo! Parabéns amigo, você é mesmo um leitor! É como eu digo: ainda resta esperança para a humanidade...
Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago) Artigo publicado originalmente no Jornal Cidade de Rio Claro/SP, em Abril de 2003
Escrito por Mago às 20h36
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Existindo Entidade isolada Dentro da cabeça contida Invisível aos olhos De quem só vê o corpo Pouco além de si mesmo
Ansiando Por comunicação Íntima, total, sem palavras Ou com palavras Eternamente mendigando Pitadas de empatia.
Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago)
Escrito por Mago às 15h47
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MALASSOMBRADO

Na escura casa da fazenda, os morcegos passavam a noite esvoaçando das paredes para a cumeeira. Eu me encolhia tremendo no fundo da rede, escutando o ruflar solerte das asas de um lado para o outro; puxava as bordas da rede sobre mim, mas aí vinha o temor de que os dentes perfurassem o pano grosso, cravando-se nas minhas costas.
Um dia me disseram que o morcego era um rato de asas. E nas noites seguintes, quando o medo recrudesceu, imaginei as trevas do quarto sendo invadidas por um enorme gato alado que me libertaria dos pequenos vampiros; imaginei a caçada feroz dentro do casarão, os pequenos corpos negros, estripados, caindo ao chão com um baque surdo. E pensei: extintos os ratos, ficará o gato, como uma onça esvoaçante, farejando mais sangue; e aí terei que sonhar um cachorro também alado e também feroz; e depois outro monstro ainda maior, e outro ainda mais monstro; e as feras cumprirão o seu destino carnívoro de feras, e eu ficarei no escuro fundo da rede, como uma velha a fiar pesadelos.
Bráulio Tavares A Espinha Dorsal da Memória
Escrito por Mago às 15h32
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EM FACE DOS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS ...

Oh! sejamos pornográficos (docemente pornográficos). Por que seremos mais castos Que o nosso avô português?
Oh ! sejamos navegantes, bandeirantes e guerreiros, sejamos tudo que quiserem, sobretudo pornográficos.
A tarde pode ser triste e as mulheres podem doer como dói um soco no olho (pornográficos, pornográficos)
Teus amigos estão sorrindo de tua última resolução. Pensavam que o suicídio Fosse a última resolução. Não compreendem, coitados que o melhor é ser pornográfico.
Propõe isso a teu vizinho, ao condutor do teu bonde, a todas as criaturas que são inúteis e existem, propõe ao homem de óculos e à mulher da trouxa de roupa. Dize a todos: Meus irmãos, não quereis ser pornográficos?
Carlos Drummond de Andrade
Escrito por Mago às 15h20
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O SEGREDO DAS CIDADES

Quando nós nos encontramos pela primeira vez eu te prometi um segredo, não foi? Um segredo delicado e brilhante, passado de mão em mão ao longo dos anos, de mestre a aluno. Não te disse que ia te contar o que são as cidades? Preste atenção pois não contarei outra vez.
Aqui está como me foi contado, velho mas renovado com cada relato fresco: nosso mundo está doente, garoto, muito doente. Um vírus entrou faz muito tempo e nos acostumamos tanto aos seus efeitos que esquecemos como era antes da doença. Estou falando das cidades, vê?
Culturas humanas eram originalmente homeostáticas; elas existiam num equilíbrio auto-sustentável, sem noção de tempo e progresso. Aí o vírus-cidade entrou. Ninguém tem certeza de onde veio ou quem o trouxe, mas como todos os organismos virais, sua única diretriz é usar todos os recursos disponíveis e produzir cópias de si mesmo. Mais e mais cópias, até não restar mais material para infectar, e o corpo hospedeiro, sobrecarregado, só pode morrer.
As cidades querem que sejamos bons engenheiros. Por fim, construiremos espaçonaves e levaremos o vírus a outros planetas.
As cidades têm sua própria maneira de falar com você; se olhar para o reflexo de um sinal luminoso, ele irá compor uma palavra mágica que invoca sonhos estranhos. Você já viu a palavra "IXÁT" brilhando na noite? É uma das palavras sagradas.
Ou faça gravações do barulho do trânsito e ouça de noite. Irá ouvir as vozes da cidade, te contando coisas, trazendo visões. Às vezes elas te mostram de onde vieram. Em sonhos acordados, vi planetas cemitérios circundando estrelas abandonadas, como mausoléos silenciosos e mortos, cada construção uma sepultura. É isso que as cidades fazem...
Mas aqueles de nós que conhecem o segredo aprendem a conseguir os poderes das cidades. Fazemos um pacto com elas e ganhamos presentes em troca.
Todos os meus ensinamentos são feitos nesse nível de consciência. É por isso que você não lembra pra onde foi o tempo. Abra seus olhos, volte a dormir. Aqui acaba a lição.
Grant Morrison Os Invisíveis - Pra Baixo e Pra Fora no Céu e no Inverno - Parte 2
Escrito por Mago às 15h41
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