Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago), um personagem à procura de uma saída.  victor_constantine@hotmail.com

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CARL SAGAN

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Sagrada Ordem dos Antigos Mistérios


PEÇA CORAÇÃO



Um - Posso pôr meu coração aos seus pés.

Dois - Se não sujar meu chão.

Um - Meu coração é puro.

Dois - É o que veremos.

Um - Eu não consigo tirar.

Dois - Você quer que eu ajude.

Um - Se não incomodar.

Dois - É um prazer pra mim. Eu também não consigo tirar.

Um - chora

Dois - Vou operar e tirar pra você. Para que que eu tenho um canivete. Vamos dar um jeito já. Trabalhar e não desesperar. Pronto - aqui está. Mas isto é um tijolo. Seu coração é um tijolo.

Um - Mas ele bate por você.

Heiner Müller
Tradução: Marcos Renaux

 Escrito por Mago às 19h23
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A GALERIA ANTIGA



Escolhendo um rosto na galeria antiga
Um rosto para se olhar no espelho… um rosto para chamar de seu
Mas qual a substância que compõe esse rosto? Qual a fonte que o gerou?
Quanto dele é seu e quanto é o resultado de todo um manancial de influências…
Imposições, sensações, ruídos de fundo numa estática por demais delicada…
E o quanto isso importa?

É uma experiência e tanto viver com medo
Medo… não como uma emoção objetiva, sentimento descontrolado, nada assim…
Medo como conceito… como abstração… poderoso… onipresente…
Medo como substância… medo incorporado à pele, aos músculos, nervos, sangue, ossos…
Medo misturado ao esperma, lançando-se incontrolavelmente adiante, num ciclo sem fim…
Medo como parte do corpo… corpo composto de medo…
Um corpo moldado por essa essência, rígido, frio…
O corpo de um autômato criado para interagir com um mundo que parece por demais distante…
Tão longe de seu verdadeiro eu

Isso existe?

Isso importa?

Quem sou?

O que sou?

Nada a declarar…

Não sendo eu nem sendo outro…

Como é que é?

Qualquer coisa de intermédio…

Não passo de um filho da mãe? É isso? É só isso?

Eu sou o que sou e é tudo o que eu sou!!!

Não devo satisfações a ninguém…

E quanto a mim?

Ninguém!!!!

Nada a declarar…

Não posso me incomodar…


Nada importa a não ser uma imagem para se reconhecer, para ser reconhecido
Seria ela real? Natural? Isso existe?
Não importa, não importa… pra que se incomodar?
Basta viver o dia a dia, ocultando seu medo de todas as outras faces da galeria antiga.
Incorporando (impondo) significados à sua própria substância
Metodicamente…
Desesperadamente…
Um ser transformado em amálgama de tudo o que foi feito dele…
De tudo o que tentou ser…
De tudo o que nunca será…
Fantoche, pedaços de cadáveres costurados num absurdo monstro de Frankenstein
Montado por quem? Deus? Espíritos? Arquétipos? Pai? Mãe? Família? Id? Ego? Superego?
Faz diferença?
Criatura que ri e que chora…
Eternamente buscando no outro a única esperança de sentido que parece existir…
Ansiando por lampejos de significado
Mendigando pitadas de empatia
Tentando ignorar que o outro que busca…
Não é mais do que outro rosto…
Da galeria antiga.

Rodrigo Emanoel Fernandes
Texto para performance apresentada na aula de Psicologia do curso de Artes Cênicas/UEL, Profa. Cândida


 Escrito por Mago às 17h37
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SOBRE O AMOR ...

Rose Walker: Esquisitice. É só mais um daqueles momentos de esquisitice, não?

Desejo: Pode-se dizer que sim.

Rose Walker: Você vai me machucar? Me matar? Me prejudicar?

Desejo: Não mais do que o habitual; não; e talvez um pouco, mas apenas com amor.

Rose Walker: Amor... Você já amou?

Desejo: Pode-se dizer que sim.

Rose Walker: Horrível, não?

Desejo: De que maneira?

Rose Walker: Você fica tão vulnerável. O peito se abre e o coração também. Desse jeito qualquer um pode entrar em você e bagunçar tudo.
Você ergue todas essas defesas. Constrói essa armadura inteira, durante anos, pra que nada possa causar mal. Aí uma pessoa idiota, igualzinha a qualquer outra, entra na sua vida idiota.
Você dá a essa pessoa um pedaço seu. E ela nem pediu. Um dia faz alguma coisa boba, como beijar você ou sorrir e, de repente, sua vida não lhe pertence mais.
O amor faz reféns. Ele entra em você. Devora tudo o que é seu e te deixa chorando no escuro. Por isso uma simples frase como "Talvez a gente devesse ser apenas amigos" ou "Muito perspicaz" vira estilhaços de vidro rasgando seu coração.

Desejo: Que pitoresco.

Rose Walker: Dói. Não só na imaginação ou na mente. É uma dor na alma, no corpo, uma verdadeira dor que entra em você e destroça por dentro.
Nada deveria ser assim.
Principalmente o amor.
Odeio o amor.

Desejo: Acho que preferia você quando estava estoicamente se queixando de não sentir nada, minha neta

Neil Gaiman
Sandman - Entes Queridos:9



 Escrito por Mago às 05h35
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PREFÁCIO DO AUTOR



O artista é criador de coisas belas.
Revelar a arte e encobrir o artista é a razão de ser da arte. O crítico é aquele capaz de exprimir de modo distinto e com material diferente a sua impressão das coisas belas.
A forma e crítica mais elevada, como a mais baixa, é um gênero de autobiografia.
Os que só vêem intenções vis nas coisas belas são depravados destituídos de encanto. É um defeito.
Os que admitem intenções belas nas coisas belas são espíritos cultos. Para estes há esperança. São os eleitos, para quem o belo significa unicamente Beleza.
Não existe livro moral nem imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo.
A aversão do século XIX ao Realismo é a fúria de Caibã ao reconhecer a sua imagem num espelho.
A antipatia que o século XIX vota ao Romantismo é o despeito de Calibã por não ver o seu rosto num espelho.
A vida moral do homem forma parte do argumento e do material do artista. Mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um instrumento imperfeito. Nenhum artista pretende provar o que quer que seja. A própria verdade pode ser provada.
Artista algum tem preferências éticas. Uma preferência moral, em um artista, é imperdoável maneirismo de estilo.
Não há artista doentio. O artista pode exprimir tudo.
O pensamento e a linguagem são para o artista instrumentos de uma arte.
Vício e virtude representam para o artista a matéria prima da sua arte. Do ponto de vista da forma, o protótipo das artes é a do músico. Do ponto de vista do sentimento, é o talento do ator.
Toda arte é ao mesmo tempo aparência e símbolo.
Os que penetram abaixo dessa aparência o fazem por sua conta e risco.
Os que decifram o símbolo também o fazem por sua conta e risco. A arte reflete o espectador e não a vida.
A diversidade de opiniões acerca de uma obra de arte evidencia que essa obra é nova, complexa e vital.
Quando a crítica discorda, o artista está de acordo consigo mesmo.
Pode perdoar-se a um homem a criação de uma coisa útil, contanto que ele não a admire. A única justificativa para a criação de uma coisa inútil é que ela seja admirada intensamente.
Toda arte é absolutamente inútil.

Oscar Wilde
O Retrato de Dorian Gray
Tradução de Pietro Nassetti

 Escrito por Mago às 05h06
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