PEÇA CORAÇÃO

Um - Posso pôr meu coração aos seus pés.
Dois - Se não sujar meu chão.
Um - Meu coração é puro.
Dois - É o que veremos.
Um - Eu não consigo tirar.
Dois - Você quer que eu ajude.
Um - Se não incomodar.
Dois - É um prazer pra mim. Eu também não consigo tirar.
Um - chora
Dois - Vou operar e tirar pra você. Para que que eu tenho um canivete. Vamos dar um jeito já. Trabalhar e não desesperar. Pronto - aqui está. Mas isto é um tijolo. Seu coração é um tijolo.
Um - Mas ele bate por você.
Heiner Müller Tradução: Marcos Renaux
Escrito por Mago às 19h23
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A GALERIA ANTIGA

Escolhendo um rosto na galeria antiga… Um rosto para se olhar no espelho… um rosto para chamar de seu… Mas qual a substância que compõe esse rosto? Qual a fonte que o gerou? Quanto dele é seu e quanto é o resultado de todo um manancial de influências… Imposições, sensações, ruídos de fundo numa estática por demais delicada… E o quanto isso importa?
É uma experiência e tanto viver com medo… Medo… não como uma emoção objetiva, sentimento descontrolado, nada assim… Medo como conceito… como abstração… poderoso… onipresente… Medo como substância… medo incorporado à pele, aos músculos, nervos, sangue, ossos… Medo misturado ao esperma, lançando-se incontrolavelmente adiante, num ciclo sem fim… Medo como parte do corpo… corpo composto de medo… Um corpo moldado por essa essência, rígido, frio… O corpo de um autômato criado para interagir com um mundo que parece por demais distante… Tão longe de seu verdadeiro eu…
Isso existe?
Isso importa?
Quem sou?
O que sou?
Nada a declarar…
Não sendo eu nem sendo outro…
Como é que é?
Qualquer coisa de intermédio…
Não passo de um filho da mãe? É isso? É só isso?
Eu sou o que sou e é tudo o que eu sou!!!
Não devo satisfações a ninguém…
E quanto a mim?
Ninguém!!!!
Nada a declarar…
Não posso me incomodar…
Nada importa a não ser uma imagem para se reconhecer, para ser reconhecido Seria ela real? Natural? Isso existe? Não importa, não importa… pra que se incomodar? Basta viver o dia a dia, ocultando seu medo de todas as outras faces da galeria antiga. Incorporando (impondo) significados à sua própria substância… Metodicamente… Desesperadamente… Um ser transformado em amálgama de tudo o que foi feito dele… De tudo o que tentou ser… De tudo o que nunca será… Fantoche, pedaços de cadáveres costurados num absurdo monstro de Frankenstein Montado por quem? Deus? Espíritos? Arquétipos? Pai? Mãe? Família? Id? Ego? Superego? Faz diferença? Criatura que ri e que chora… Eternamente buscando no outro a única esperança de sentido que parece existir… Ansiando por lampejos de significado… Mendigando pitadas de empatia… Tentando ignorar que o outro que busca… Não é mais do que outro rosto… Da galeria antiga.
Rodrigo Emanoel Fernandes Texto para performance apresentada na aula de Psicologia do curso de Artes Cênicas/UEL, Profa. Cândida
Escrito por Mago às 17h37
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SOBRE O AMOR ...

Rose Walker: Esquisitice. É só mais um daqueles momentos de esquisitice, não?
Desejo: Pode-se dizer que sim.
Rose Walker: Você vai me machucar? Me matar? Me prejudicar?
Desejo: Não mais do que o habitual; não; e talvez um pouco, mas apenas com amor.
Rose Walker: Amor... Você já amou?
Desejo: Pode-se dizer que sim.
Rose Walker: Horrível, não?
Desejo: De que maneira?
Rose Walker: Você fica tão vulnerável. O peito se abre e o coração também. Desse jeito qualquer um pode entrar em você e bagunçar tudo. Você ergue todas essas defesas. Constrói essa armadura inteira, durante anos, pra que nada possa causar mal. Aí uma pessoa idiota, igualzinha a qualquer outra, entra na sua vida idiota. Você dá a essa pessoa um pedaço seu. E ela nem pediu. Um dia faz alguma coisa boba, como beijar você ou sorrir e, de repente, sua vida não lhe pertence mais. O amor faz reféns. Ele entra em você. Devora tudo o que é seu e te deixa chorando no escuro. Por isso uma simples frase como "Talvez a gente devesse ser apenas amigos" ou "Muito perspicaz" vira estilhaços de vidro rasgando seu coração.
Desejo: Que pitoresco.
Rose Walker: Dói. Não só na imaginação ou na mente. É uma dor na alma, no corpo, uma verdadeira dor que entra em você e destroça por dentro. Nada deveria ser assim. Principalmente o amor. Odeio o amor.
Desejo: Acho que preferia você quando estava estoicamente se queixando de não sentir nada, minha neta
Neil Gaiman Sandman - Entes Queridos:9
Escrito por Mago às 05h35
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PREFÁCIO DO AUTOR

O artista é criador de coisas belas. Revelar a arte e encobrir o artista é a razão de ser da arte. O crítico é aquele capaz de exprimir de modo distinto e com material diferente a sua impressão das coisas belas. A forma e crítica mais elevada, como a mais baixa, é um gênero de autobiografia. Os que só vêem intenções vis nas coisas belas são depravados destituídos de encanto. É um defeito. Os que admitem intenções belas nas coisas belas são espíritos cultos. Para estes há esperança. São os eleitos, para quem o belo significa unicamente Beleza. Não existe livro moral nem imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo. A aversão do século XIX ao Realismo é a fúria de Caibã ao reconhecer a sua imagem num espelho. A antipatia que o século XIX vota ao Romantismo é o despeito de Calibã por não ver o seu rosto num espelho. A vida moral do homem forma parte do argumento e do material do artista. Mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um instrumento imperfeito. Nenhum artista pretende provar o que quer que seja. A própria verdade pode ser provada. Artista algum tem preferências éticas. Uma preferência moral, em um artista, é imperdoável maneirismo de estilo. Não há artista doentio. O artista pode exprimir tudo. O pensamento e a linguagem são para o artista instrumentos de uma arte. Vício e virtude representam para o artista a matéria prima da sua arte. Do ponto de vista da forma, o protótipo das artes é a do músico. Do ponto de vista do sentimento, é o talento do ator. Toda arte é ao mesmo tempo aparência e símbolo. Os que penetram abaixo dessa aparência o fazem por sua conta e risco. Os que decifram o símbolo também o fazem por sua conta e risco. A arte reflete o espectador e não a vida. A diversidade de opiniões acerca de uma obra de arte evidencia que essa obra é nova, complexa e vital. Quando a crítica discorda, o artista está de acordo consigo mesmo. Pode perdoar-se a um homem a criação de uma coisa útil, contanto que ele não a admire. A única justificativa para a criação de uma coisa inútil é que ela seja admirada intensamente. Toda arte é absolutamente inútil.
Oscar Wilde O Retrato de Dorian Gray Tradução de Pietro Nassetti
Escrito por Mago às 05h06
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