Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago), um personagem à procura de uma saída.  victor_constantine@hotmail.com

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O ATOR

Por mais que as cruentas e inglórias batalhas do cotidiano tornem um homem duro ou cínico o suficiente para ele permanecer indiferente às desgraças ou alegrias coletivas, sempre haverá no seu coração, por minúsculo que seja, um recanto suave onde ele guarda ecos dos sons de algum momento de amor que viveu na sua vida.

Bendito seja quem souber dirigir-se a esse homem que se deixou endurecer, de forma a atingi-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade e por aí desperta-lo, tira-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição a que por desencanto ou medo se sujeita, e inquieta-lo e comove-lo para as lutas comuns da libertação.

Os atores têm esse dom. Eles têm o talento de atingir as pessoas nos pontos onde não existem defesas. Os atores, eles, e não os diretores e autores, têm esse dom. Por isso o artista do teatro é o ator.

O público vai ao teatro por causa dos atores. O autor de teatro é bom na medida em que escreve peças que dão margem a grandes interpretações dos atores. Mas o ator tem que se conscientizar de que é um Cristo da humanidade e que seu talento é muito mais uma condenação do que uma dádiva. O ator tem que saber que, para ser um ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios. É preciso que o ator tenha muita coragem, muita humildade e sobretudo um transbordamento de amor fraterno para abdicar da própria personalidade em favor da personalidade de sua personagem, com a única finalidade de fazer a sociedade entender que o ser humano não tem instintos e sensibilidade padronizados, como os hipócritas com seus códigos de ética pretendem.

Eu amo os atores nas suas alucinantes variações de humor, nas suas crises de euforia ou depressão. Amo o ator no desespero de sua insegurança, quando ele, como viajor solitário, sem a bússola da fé ou da ideologia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando no seu mais secreto íntimo afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem. E amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma reserva toda a fragilidade do ser humano reprimido, violentado. E amo o ator que se empresta inteiro para expor para a platéia os aleijões da alma humana, com a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor. E amo os atores que sabem que a única recompensa que podem ter - não é o dinheiro, não são os aplausos - é a esperança de poder rir todos os risos e chorar todos os prantos. Eu amo os atores que sabem que no palco cada palavra e cada gesto são efêmeros e que nada registra nem documenta sua grandeza. Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica.

Plínio Marcos
Canções e Reflexões de um Palhaço



 Escrito por Mago às 16h08
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BUTÔ-PUNK - A Dança das Trevas Japonesa

 

O estupro de uma galinha... Um senhor de noventa anos travestido... Bailarinos que agem como fetos desorientados saídos do ventre... O Butô, sem dúvida alguma, é a versão Punk da dança clássica japonesa.

Concebido inicialmente como ankoku butoh, ou dança das trevas, ele surge no final dos anos 50, num Japão recém-humilhado pela rendição na Segunda Grande Guerra. Numa cerimônia de iniciação, Yoshito (filho de Kazuo Ohno), lê silenciosamente as palmas de suas mãos, sendo observado durante cinco minutos por Tatsumi Hijikata. Ao receber dele uma galinha, simula sexo com a ave entre as pernas, acabando por matá-la. Em seguida, entrega-se ao ataque do próprio Hijikata. Nascia aí o Butô. 

 

"Traduzindo-se o termo 'butoh', 'bu' significa dança e 'toh' quer dizer passo. Literalmente, dança compassada". - Juliana Parlato

O primeiro coletivo de artistas de butô foi formado Hijikata, Kazuo Ohno, Yoshito, Mitsutaka Ishii e Akira Kasai. Este grupo sobreviveria por cinco anos e tanto Ohno quanto Hijikata sairam e ganharam o mundo, popularizando e aperfeiçoando a dança a partir do final dos anos 70.

A primeira performance de butô na Europa aconteceu em 1978. O Brasil só tomou conhecimento da dança nos anos 80, através de Kazuo Ohno, então um senhor do mais de noventa anos que continuava dançando e foi, sem dúvida, o principal nome do Butô em todo o mundo.



"Posso dizer que tive influência do balé clássico depois de Isadora Duncan (1878-1910), que tirou as sapatilhas e começou a dança livre, rompendo com as formas do balé; também de Mary Wigman (1886-1973), que pertenceu à dança de vanguarda alemã dos anos 30 e uma das criadoras do expressionismo na Alemanha. A dança de Wigman era completamente diferente do balé e da dança de Duncan. Era uma dança que nasce no interior, na intimidade do ser humano." - Kazuo Ohno

Considerar o Butô a versão Punk da dança clássica não é nem de longe um absurdo. A idéia de polidez asséptica e bem comportada do Balé é revirada pelo avesso, brincando com regras, regulações, idéias impostas e estereótipos. Assim como o Punk, que negava a submissão aos valores da sociedade e as convenções, o Butô chegava ao cúmulo de negar a existência de um corpo vivo. O Butô baseia-se na idéia do Corpo morto.

Hijikata costumava observar uma galinha que, depois de ter sua cabeça cortada, continuava se movendo durante um certo tempo. Desse modo, a morte vem com o fim do comando cerebral. Mas os movimentos do corpo não partem só do cérebro, há processos que continuam, conquistando pequenas existências de outra qualidade, ainda que temporariamente, após a morte.

O corpo morto do Butô, a base verdadeira desta forma de expressão artística, sugere que os movimentos brotem segundo sua própria vontade e as leis de seu próprio mundo. O Butô busca a energia direto do ventre materno, quando ele ainda não foi exposto ao contato com o mundo exterior, fazendo brotar de lá sua energia vital. 

 

É a forma sem forma, o conteúdo sem conteúdo, o cheio dentro do vazio, o nulo que é válido. Idéias próprias, sem correspondentes e equivalentes no mundo exterior, a não ser o que está dentro de você mesmo. O Butô é o movimento Punk que deu certo.

Imagens que ilustram esta matéria foram usadas como divulgação. Direitos Reservados



Alisson Gothz
19/10/2000
Fonte original: Revista Virtual CARCASSE - Comunidade Virtual da Arte Obscura

 Escrito por Mago às 16h03
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AMOR ?

 

...ela me fita com seus olhos desiguais e eu alcanço um vislumbre do mistério.
Ela me toca, com mãos que emanam calor, e eu me pergunto até onde vai a profundidade desse contato.
Ela me fala através de enigmas, volteios elegantes e ziguezagues, tentando não revelar nada de si para si mesma.
Ela descansa a cabeça no meu peito e me pede para estar ao seu lado quando a dor vier.
Eu digo: "Eu te amo", e minto: "Sempre estarei com você quando precisar".
Eu a toco, ternamente, com a lembrança dos breves momentos em que sua boca uniu-se a minha, e aguardo enquanto ela se dissipa como um sonho ao amanhecer...

Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago)
Ilustração: Henry and June - cena do filme



 Escrito por Mago às 16h01
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O LUTADOR

Registro fotográfico da perfomance O Lutador, baseada no poema de Carlos Drummond de Andrade, realizada no dia 14 de Dezembro de 2002, no Gabinete de Leitura da cidade de Rio Claro-SP, por ocasião das comemoração do centenário de Carlos Drummond de Andrade.

A Performance consistia em dois poetas manipulando paralelepípedos ilustrados com letras, tentando construir a palavra poesia e jamais conseguindo, constantemente lutando com as letras (e entre si) para estrair delas algum sentido. Por fim, um dos poetas, esgotado, morre e é sepultado pelo poeta remanescente.

 

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.



Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.



Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.



Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.



Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.

 

O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.

 

CRÉDITOS DO TRABALHO:
José Roberto Sechi
Thiago Buoro
Poema de Carlos Drummond de Andrade



 Escrito por Mago às 16h01
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ARTE POSTAL



O que é Arte Postal ?
Arte Postal é um atuante sistema estratégico de ação informativa que apropria-se dos serviços dos correios, usando os mesmos como suporte e transformando em arte qualquer tipo de informação ou objeto que penetra e se dilui nesse intenso fluxo comunicacional.
A Arte Postal (ou Mail Art) é um fenômeno artístico internacional que não conhece fronteiras ou qualquer outro tipo de imposição e incorpora em seu fluxo: cartões postais, cartas, arte envelopada, envelopes trabalhados, selos, carimbos, obras plásticas e literárias, informações artísticas, vídeo, performances e tudo mais o que a imaginação criar e o correio aceitar.

Quando surgiu a Arte Postal ?
A troca de trabalhos pela via postal era prática corente entre os poetas desde os anos cinqüenta. No entanto, a Arte Postal (Mail Art), onde o correio passa a ser o suporte privilegiado da arte, surge em 1962 com a criação da New Correspondance School of Art de Nova Yorque, com Ray Johnson.

Características táticas da Arte Postal:
As únicas regras admitidas na prática da Arte Postal, além daquelas impostas pelo próprio suporte (correio) são: as obras devem ser enviadas via postal; não se admite seleção ou premiação de obras; os destinatários estão obrigados a acusar o recebimento de obras enviando uma outra obra, uma lista de participantes, um catálogo, etc. (conforme o caso); as obras enviadas não são devolvidas e não podem ser comercializadas pelo destinatário.

Conclusão:
A Arte Postal é o "eu estou aqui", é o "eu sou artista" comunicado aos outros, onde o que importa é a produção da arte para o aqui-agora, sem a preocupação de projetá-la para o futuro. 



José Roberto Sechi
Av. M29, número 2183, Jd. São João, Rio Claro-SP. CEP. 13505-410 (sechiisland@yahoo.com.br)

Letícia Tonon
Av. Rêmolo Tonon, número 337, Santa Gertrudes-SP. CEP. 13510-000 (leticiatonon@yahoo.com.br)

 Escrito por Mago às 15h59
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CORVOS NO LIMIAR DOS MUNDOS



Descobrir outro mundo não é apenas um fato imaginário. Pode acontecer aos homens. Aos animais também. Por vezes, as fronteiras resvalam ou interpenetram-se: basta estar presente nesse momento. Vi o fato acontecer a um corvo. Esse corvo é meu vizinho: nunca lhe fiz mal algum, mas ele tem o cuidado de se conservar no cimo das árvores, de voar alto e evitar a humanidade. O seu mundo principia onde a minha vista acaba. Ora, uma manhã, os nossos campos estavam mergulhados num nevoeiro extraordinariamente espesso, e eu me dirigia às apalpadelas para a estação. Bruscamente, à altura dos meus olhos, surgiram duas asas negras, imensas, precedidas por um bico gigantesco, e tudo isso passou como um raio, soltando um grito de terror tal que eu faço votos para que nunca mais ouça coisa semelhante. Esse grito perseguiu-me durante toda a tarde. Cheguei a consultar o espelho, perguntando a mim próprio o que eu teria de tão revoltante...

Acabei por perceber. A fronteira entre os nossos dois mundos resvalara, devido ao nevoeiro. Aquele corvo, que supunha voar à altitude habitual, vira de súbito um espetáculo espantoso, contrário, para ele, às leis da natureza. Vira um homem caminhar no espaço, bem no centro do mundo dos corvos. Deparara com a manifestação de estranheza mais completa que um corvo pode conceber; um homem voador...

Agora, quando me vê, lá do alto, solta pequenos gritos, e reconheço nesses gritos a incerteza de um espírito cujo universo foi abalado. Já não é, nunca mais será, como os outros corvos...

Loren Eiseley
Antropólogo Americano
Citação extraída do livro O Despertar dos Mágicos, de Louis Pauwels e Jacques Bergier



 Escrito por Mago às 15h59
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A VERDADEIRA FACE DO "BIG BROTHER"



Fala a verdade, você nunca parou pra pensar por que o Big Brother Brasil tem esse nome? Afinal o que é que tem a ver "Grande Irmão" com um programa no qual um grupo de pessoas fica confinado numa casa sob a vigilância de câmeras 24 horas por dia? Não me diga que você achava que era alguma gíria, tipo: "E aí, brother?" Não, nada disso. Big Brother surgiu num dos mais importantes livros de ficção científica do século XX, o clássico 1984, do escritor inglês de origem hindu George Orwell. Já ouviu falar? Não? Eu já esperava. Nos últimos anos quase não houve referências à obra de Orwell na mídia. Seu livro não é mencionado sequer como uma curiosidade para programas de fofocas, tipo Vídeo Show. Quase como num esforço deliberado para levar o público a esquecer o significado original do termo Big Brother. Bom, se ninguém quer explicar, explico eu.

1984 é um romance futurista, publicado pela primeira vez em 1949, onde Orwell previa a existência de um Estado totalitário monstruoso, uma sociedade onde conceitos como liberdade individual, democracia, livre arbítrio, pensamento e até o amor caíram em desuso. No país fictício do livro, todos os atos e atividades dos cidadãos são controlados diretamente pelo Estado. Questionar a autoridade, ter opiniões diferentes da maioria ou mesmo pensar livremente era considerado crime e passível de punição severa (tortura ou morte). Para manter esse controle tão rígido sobre os cidadãos, o Estado mantinha "teletelas" em todas as residências, locais de trabalho e até nas ruas. A "teletela" é um aparelho semelhante à televisão, porém mais avançado: não só recebe imagens como as transmite. Enquanto assiste à TV, o cidadão também é "assistido" por ela! Imagine uma televisão que funciona automaticamente, não pode ser desligada e vigia cada um de seus passos, em casa, nas ruas, no trabalho, em toda parte, e pode a qualquer momento repreender você se fizer qualquer coisa que o Estado considere proibida. Pensar, por exemplo. O inferno não poderia ser pior do que isso!

Mas o controle era exercido de uma maneira ainda mais profunda. Não basta vigiar e punir, é necessário condicionar o povo a aceitar o sistema como se fosse o único possível. Assim, o Estado bombardeia os cidadãos diariamente com propaganda ideológica. Até uma guerra fictícia que nunca acaba é utilizada para fazer o povo acreditar na força e infalibilidade de seu governo. Periodicamente são lançadas novas edições do dicionário oficial, sempre com menos palavras do que as anteriores. As palavras abolidas são consideradas inexistentes e utiliza-las é crime. Assim, até mesmo a linguagem se deteriora, juntamente com a capacidade de pensar, organizar as idéias, num processo de alienação que reduz as pessoas a meros autômatos que trabalham, comem, dormem e acreditam cegamente em tudo o que a televisão diz. Nem mesmo a liberdade do sexo é permitida. Sexo por prazer é proibido e a procriação necessita de autorização por escrito.

A essa altura você já deve estar se perguntando: Quem governa esse pesadelo? Pois bem, o presidente vitalício, líder supremo da nação, é conhecido apenas pelo nome de Big Brother, o grande irmão. Onipresente, onisciente e onipotente, ele observa tudo e todos através das telas de TV. Sua face está em toda parte, sua liderança nunca é questionada, para os cidadãos ele é, praticamente, um deus, pois eles sabem que, não importa onde você esteja Big Brother está observando você.

A grande ironia é que Big Brother não existe. Não é uma pessoa real. Ninguém nunca o viu pessoalmente. Ele é parte da propaganda ideológica do Estado. Os verdadeiros governantes não têm rosto, caminham desapercebidos na multidão. Mas até mesmo esses governantes secretos não são livres. O Estado tornou-se uma máquina burocrática tão eficiente que, praticamente, se auto-administra. Para todos os efeitos, Big Brother é real e zela por todos nós.

O livro foi concebido como uma crítica ao stalinismo e a corrupção dos ideais da Revolução Russa, mas acabou tornando-se um alerta aos perigos de qualquer tipo de regime burocrático totalitário. O termo Big Brother era muito conhecido na Europa, como um símbolo da massificação do ser humano pela mídia. É triste e assustador que hoje o mesmo termo tenha sido associado a um patético programa de TV que simboliza exatamente o oposto de tudo o que a obra de Orwell representa. O abominável Big Brother Brasil (versão brasileira de um programa europeu) usa o conceito do "Grande Irmão" como uma mera piada de mau gosto, tirando a força que o símbolo possuía originalmente. O programa enaltece a ganância, a deslealdade, a competitividade exacerbada e o individualismo acima de qualquer coisa, recompensando essas características com prêmios em dinheiro e ovação pública. Quanto mais canalha, falso, ignorante e cínico for o participante mais chances ele tem de ganhar o jogo. Os telespectadores espelham-se nos participantes e encontram neles justificativas para suas próprias fraquezas, mesquinharias, falsidades e, acima de tudo, para o massacrante cotidiano de suas vidas. Some isso ao onipresente markenting da Globo e fica fácil entender porque o Ibope de tal lixo apenas cresce.

O mais perturbador, entretanto, é o fato de que, aparentemente, ninguém para pra pensar no motivo do nome do programa! Simplesmente o aceitam como um fato, sem questionar, sem refletir. Acreditam cegamente no que a televisão diz e, embevecidos, jazem diante dela, absorvendo tudo como esponjas, apáticos, rindo quando se espera que riam, chorando quando se espera que chorem, pensando como querem que pensem. Todo um país sintonizado na Globo, assistindo ao Big Brother Brasil.

E o Big Brother zela por todos nós.




Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago)
Crônica originalmente publicada no Jornal Cidade de Rio Claro, em 28 de Março de 2003
Imagens: Jaime Cortez (ilustração), George Orwell e sua criação, Big Brother

 Escrito por Mago às 15h58
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SECHIISLAND



Sechiisland é um país imaginário, uma ilha fantástica, um estado de espírito, um projeto de arte conceitual.
Nascido no final de 2001, o Projeto Sechiisland incorporou atividades artísticas anteriores dentro da militância artecorreista, que iam da rotineira troca de arte postal com mailartistas de todo o planeta e participação em projetos internacionais à edição da revista “Pense Aqui”, nascida em outubro de 2000. A revista alternativa Pense Aqui é uma espécie de exposição permanente que utiliza como suporte os serviços internacionais de correios ; artistas do mundo todo enviam obras plásticas ou literárias, que são publicadas pela ordem de chegada e uma cópia da revista é imediatamente enviada a cada participante. É um fluxo contínuo de informações e trocas interpessoais.
Em janeiro de 2003 nasce a Sechiisland’s Micro Gallery. A “Micro Galeria da Ilha Sechi” é um espaço alternativo destinado a pequenas exposições individuais de artistas cujos trabalhos têm em comum o fato de estarem inseridos nos movimentos experimentais artísticos e literários surgidos a partir da década de sessenta do século vinte até os dias atuais.
A Sechiisland’s Micro Gallery nasce com a pretensão de ser um espaço diferenciado dos tradicionais espaços para exposições:
1.º - Recusa-se a ser posta no caminho das pessoas suplicando a atenção de algum ocasional transeunte interessado; ao contrário, exige que o visitante faça o primeiro esforço e desloque-se até a periferia da cidade de Rio Claro-SP para ver, ou melhor, “ler” uma exposição de artes plásticas ou poesia visual;
2.º - Garante a cada pessoa interessada o mínimo de informações necessárias para a leitura de uma respectiva exposição;
3.º - Acredita que o papel da arte é, sobretudo, informar e provocar nas pessoas a capacidade de questionamento.
Em março de 2003 é criada a Sechiisland International Library, uma biblioteca especializada em arte e publicações alternativas. Diariamente são recebidos livros, revistas, catálogos, zines, publicações experimentais, livros de artista, vídeos, CDs, CD-ROMs, textos e outra informações.
Em novembro de 2003 é criada a pseudo-editora Edições 100 (sem apoio cultural, sem revisão ortográfica, sem pretensões literárias, sem valor comercial), cujo logotipo passou a aparecer nas revistas Pense Aqui e em outras publicações alternativas.




Os artistas interessados em ter seus trabalhos publicados na Pense Aqui, ou possuam material para ser doado à Sechiisland International Library, ou ainda queiram agendar uma visita à uma das exposíções da Sechiisland's Micro Gallery, podem entrar em contato com o curador José Roberto Sechi através do endereço: Av. M29, número 2183, Jd. São João, Rio Claro-SP, CEP. 13505-410 ou pelo e-mail:
sechiisland@yahoo.com.br


 Escrito por Mago às 15h58
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POR UMA ÉTICA IMORAL

 

"Ajuda a ti mesmo: e então todos te ajudarão. Princípio do amor ao próximo"

Nietzsche

Na busca à compreensão da conduta do homem, uma das interpretações mais aceitas é de que a Moral (mores) caracteriza-se pela busca do Bem, a procura do Bem para o coletivo; este Bem institui-se de acordo com um conhecimento de si, criando-se um conceito universal de Bom. Portanto, entende-se a Ética como o conjunto de "normas" que regulam as ações do homem e Moral a aceitação desta "norma" (ou desta Ética).

Todavia, com tais definições surgem os primeiros problemas: percebe-se o quão desafortunado pode ser tal conceito, uma vez que torna-se custoso conhecermos o que é Bom para todos, somente pelo conhecimento pode-se dizer o que é Bom ao coletivo; não se pode afirma-lo a partir de uma vontade - ou Necessidade - individual, visto que o Bom para mim, não é , necessariamente, o Bom ao outro. A Ética (êthos), etimologicamente se constitui num apelo inspirador às ações humanas ("se refere ao que se faz ou se é por características naturais" - Chauí), enquanto a Moral proclama uma defensa, regulando as ações do homem impedindo-o de realizar sua Vontade; ao passo que aclama por um Bem geral, o mesmo Bem a todos, instituindo o não. A moral extrai do homem a possibilidade daquilo que ele deseja, numa frenética busca pelo Bem termina por instituir o verdadeiro Mal, uma vez que o Bem do todo, por vezes, não condiz com o Bom para mim, ou seja, o todo torna-se ordenado, ao passo que os indivíduos que o integram não se realizam. Desta forma a Moral põe por terra tudo quanto seja Bom e estabelece o Bem, fundamentando-se através de conceitos humanamente construídos.

Em muitos casos não conhecemos o que é o Bom ou, se o conhecemos não o experimentamos, pois muitas vezes o que é Bom a nós vai de encontro a tudo quanto a Moral nos marcou. O Bom, a nós, é inefável.

Nietzsche, seguindo esta interpretação da Ética como norma que o sujeito cria a si próprio e não ao coletivo, vai denominar o sujeito ético de nobre, enquanto que o sujeito moral é o escravo. O nobre nietzscheano é o que cria para si o que é Bom e o que é Ruim, vivendo, desta forma, eticamente, mas contra a Moral. Ao passo que o escravo é o que recebe de fora o Bom e o Mal, nada cria, aceita o que a Moral lhe impõe, Moral esta conforme a interpretação aceita atualmente. "Moral: é preciso disparar contra a moral", diz o autor de Crepúsculo dos Ídolos.

Enquanto o homem que cria seus próprios valores, o ético, vive em sinceridade e franqueza para consigo, o homem moral vive na mágoa, não sendo franco para consigo, vivendo numa má-consciência.

O homem escravo é o homem do ressentimento, em cada ato seu que vai de encontro aos preceitos morais, vem ao seu encontro a culpa, a má-consciência, o remorso, ou seja, a doença. E é assim que desejam que nos sintamos.

Taitson Alberto Leal dos Santos
26-07-2001


 Escrito por Mago às 15h57
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Ela esperou até que seu marido e as crianças estivessem longe e adentrassem a floresta nevada, e encerrou tudo. Abandonou tudo.

Ela queria que a dor parasse. A dor no coração. Ela adormeceu no caminho para a morte, acordando apenas quando a patrulha rodoviária encontrou seu corpo.

Ela estava fria, rígida, congelada, quando a encontraram.

"Uma pessoa assim...", disse a policial. "Você pensa que tem todos os motivos do mundo para viver."

Ela tentou falar, contar que foi isso mesmo que tornou a dor insuportável, mas, como alguém preso num pesadelo, não conseguia ser ouvida. Ela gritou e nenhum som saiu. Ela observou seu corpo ser levado.

Ela sentou ao lado da estrada, na neve. Sem corpo e amedrontrada, esperando a felicidade começar.

Neil Gaiman
15 Retratos de Desespero
Sandman - Noites Sem Fim
Pintura de Henry Fusele - The nightmare

 Escrito por Mago às 15h52
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O SUICÍDIO É UMA SOLUÇÃO ?

(resposta a uma enquete surrealista)


Não, o suicídio ainda é uma hipótese. Quero ter o direito de duvidar do suicídio assim como de todo o restante da realidade. É preciso, por enquanto e até segunda ordem, duvidar atrozmente, não propriamente da existência, que está ao alcance de qualquer um, mas da agitação interior e da profunda sensibilidade das coisas, dos atos, da realidade. Não acredito em coisa alguma à qual eu não esteja ligado pela sensibilidade de um cordão pensante, como que meteórico e ainda assim sinto falta de mais meteoros em ação. A existência construída e sensível de qualquer homem me aflige e decididamente abomino toda realidade. O suicídio nada mais é que a conquista fabulosa e remota dos homens bem-pensantes, mas o estado propriamente dito do suicídio me é incomprensível. O suicídio de um neurastênico não tem qualquer valor de representação, mas sim o estado de espírito de um homem que tiver determinado seu suicídio, suas circunstâncias materiais e o momento do seu desfecho maravilhoso. Desconheço o que sejam as coisas, ignoro todo o estado humano, nada no mundo se volta para mim, dá voltas em mim. Tolero terrivelmente mal a vida. Não existe estado que eu possa atingir. E certamente já morri faz tempo, já me suicidei. Me suicidaram, quero dizer. Mas que achariam de um suicídio anterior, de um suicídio que nos fizesse dar a volta, porém para o outro lado da existência, não para o lado da morte? Só este teria valor para mim. Não sinto apetite da morte, sinto apetite de não ser, de jamais ter caído neste torvelinho de imbecilidades, de abdicações, de renúncias e de encontros obtusos que é o eu de Antonin Artaud, bem mais frágil que ele. O eu deste enfermo errante que de vez em quando vem oferecer sua sombra sobre a qual ele já cuspiu faz muito tempo, este eu capenga, apoiado em muletas, que se arrasta; este eu virtual, impossível e que todavia se encontra na realidade. Ninguém como ele sentiu a fraqueza que é a fraqueza principal, essencial da humanidade. A de ser destruída, de não existir.



Retirado de Escritos de Antonin Artaud
L&PM Editores
Tradução, seleção e notas de Claudio Willer
Fotos de Man Ray



 Escrito por Mago às 15h49
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Dei início a esse blog em Agosto de 2003 com um propósito (ou ausência de) muito semelhante ao da maioria dos "blogueiros" da net: terapia barata. Eu passava pelo período mais terrível da minha vida (acreditem, não é exagero) e precisava, de alguma forma, processar a tempestade cerebral que estava me destruindo. Por dois meses, a Sagrada Ordem dos Antigos Mistérios (então hospedada no abominável blig do ig) cumpriu bem a sua origem despretensiosa; nesse período uma coleção de retalhos de literatura, poesia e imagens colhidos na net foi sendo montada e elaborada na forma de uma quase projeção virtual da minha mente conturbada. O resultado foi pobre, admito, melodramático, excessivamente auto-referencial, praticamente incapaz de atrair mais do que uma fugidia atenção de outros que não meus amigos íntimos (e, óbvio, da fonte das minhas angústias). Por fim, quando a tempestade passou, percebi que o blog já não tinha mais razão de ser. Isso coincidiu com a minha participação numa performance do Grupo AcompanhiA, cujo registro fotográfico pareceu ser uma excelente forma de encerrar as atividades da dita Sagrada Ordem. Por muitos meses, o blog serviu apenas para manter on-line esse registro, para aqueles que, porventura, tivessem interesse em visita-lo mais de uma vez.

Muita coisa aconteceu de lá para cá. Mudei de cidade (de Rio Claro/SP para Londrina/PR, uma troca mais do que acertada) de grupo de amigos, de trabalho, de vida. A inclinação para as artes, em especial o teatro, outrora em segundo plano, tornou-se o foco das minhas atividades. Nesse novo contexto, comecei a acalentar a idéia de reativar a Sagrada Ordem dos Antigos Mistérios e torna-la algo realmente interessante. Ao invés de um muro de lamentações de (mais) um blogueiro depressivo ou um mero "diário virtual" de solitários em busca de amigos imaginários, o blog se tornaria o suporte de um projeto de Arte Conceitual, uma esposição permanente de textos, poesias, idéias, filosofias e imagens, numa espécie de colagem virtual em que os limites seríam ditados apenas pela estrutura característica de qualquer blog.

O conteúdo de cada um dos posts não será, necessariamente, obras minhas. Na maior parte será material de outros autores, tanto consagrados quanto anônimos (obviamente todos devidamente creditados). A idéia é que esses fragmentos sejam assimilados pela obra maior: o blog em si, que se tornará, assim, uma interminável obra de Arte Conceitual, sempre ganhando novos contornos e significados à cada post acrescentado, sem contar os comentários dos visitantes.

A Net é um suporte para criação artística extremamente extimulante em sua interatividade. Tudo que se torna parte da rede adquire a capacidade de reproduzir-se exponencialmente pelas mãos de infinitos autores anônimos. O projeto de Arte Conceitual Sagrada Ordem dos Antigos Mistérios, estando inserido nesse suporte e, mais especificamente, no sub-suporte "blog", espera ser visitado, comentado, copiado, violado e distorcido como tudo o mais na rede, expandindo-se e mesclando-se ao universo virtual em formas inesperadas e incontroláveis. Com o tempo, o projeto será aperfeiçoado de modo a explorar o máximo possível o potencial do suporte. Por hora, seu propósito é, ao menos, alcançar os bookmarks de meus amigos, dos amigos de meus amigos, dos amigos dos amigos de meus amigos, dos desconhecidos, dos criadores de correntes, dos divulgadores de lendas urbanas, dos poetas virtuais, dos comediantes, dos tarados, dos loucos, dos nerds, dos solitários, dos demônios, dos anjos, dos seres estranhos, dos viciados, dos malditos e de todos mais que habitam esse receptáculo virtual. Meu e-mail está disponível, os comentários estão liberados, a porta está aberta... entrem.
Ainda há muito para ver.

Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago)

P.S. Essa foi a primeira e última vez que irei explicar o propósito do blog. Que os visitantes do dia a dia o interpretem como acharem melhor. Será um blog sobre teatro? Poesia? Literatura? Magia? Besteiras? Tanto faz.
P.P.S. Vale mencionar que o título do blog já é uma citação, extraída do número 1 da HQ Sandman de Neil Gaiman.



 Escrito por Mago às 22h32
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