Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago), um personagem à procura de uma saída.  victor_constantine@hotmail.com

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Sagrada Ordem dos Antigos Mistérios


UM ADEUS...

Foi uma bela jornada... mas chegou a hora de dizer adeus a esse velho blog que foi meu companheiro em tantos momentos insólitos, receptáculo de minhas dores, alegrias e neuroses, retrato cifrado de minha mente conturbada... especialmente durante os anos loucos que vivi em Londrina/PR cursando Artes Cênicas na Universidade Estadual de Londrina, onde eu postava atualizações em cybercafés que funcionavam de madrugada, entre uma cerveja e outra no Valentino (que ainda era "O Valentino", para os que lembram o que isso significa).
A Sagrada Ordem dos Antigos Mistérios continuará on-line (enquanto o UOL assim permitir) mas encerrado, congelado nessa espécie de "formato final", ciente de ter cumprido o propósito daquele primeiro post enterrado em suas entranhas. Certamente os equivalentes virtuais a folhas secas, teias de aranha, rachaduras e poeira se acumularão com o tempo... faz parte.
A jornada continua, claro, sob outras formas, tanto na vida quanto nessas embalagens de vidas que chamamos de blogs... Para aqueles que porventura passem por essa pequena mansão assombrada perdida entre os 0 e 1 da net e quiserem me seguir para novos recantos, deixo para trás os links para os blogs que mantenho atualmente: o AcompanhiA - Grupo Performático, dedicado às atividades do meu grupo de performance art e o Reminiscências de um Lorde Velho, um blog pessoal dedicado ao meu trabalho como escritor (literatura, resenhas, artigos), dessa vez sem citações, apenas minhas próprias letras...
Dito isso, um beijo a todos e até a próxima grande aventura...

Rodrigo Emanoel Fernandes, o Lorde Velho...
Ilustração: The Rain by Blackseed



 Escrito por Mago às 16h30
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O SUICIDA E O COMPUTADOR

Depois de fazer o laço da forca e colocar uma cadeira embaixo, o escritor sentou-se atrás da sua mesa de trabalho, ligou o computador e digitou:
"No fundo, no fundo, os escritores passam o tempo todo redigindo a sua nota de suicida. Os que se suicidam mesmo são os que a terminam mais cedo."
Levantou-se, subiu na cadeira sob a forca e colocou a forca no pescoço. Depois retirou a forca do pescoço, desceu da cadeira, voltou ao computador e apagou o segundo "no fundo". Ficava mais enxuto. Mais categórico. Releu a nota e achou que estava curta. Pensou um pouco, depois acrescentou:
"Há os que se suicidam antes de escapar da terrível agonia de encontrar um final para a nota. O suicidio substitui o final. O suicídio é o final."
Levantou-se, subiu na cadeira, colocou a forca no pescoço e ficou pensando. Lembrou-se de uma frase de Borges. Encaixa, pensou, retirando a corda do pescoço, descendo da cadeira e voltando ao computador. Digitou:
"Borges disse que o escritor publica seus livros para livrar-se deles, senão passaria o resto da vida reescrevendo-os. O suicídio substitui a publicação. O suicídio é a publicação. No caso, o livro livra-se do escritor."
Levantou-se, subiu na cadeira, mas desceu da cadeira antes de colocar a forca no pescoço. Lembrara-se de outra coisa. Voltou ao computador e, entre o penúltimo e o último parágrafo, inseriu:
"Há escritores que escrevem um grande livro, ou uma grande nota de suicida, e depois nunca mais conseguem escrever outro. Atribuem a um bloqueio, ao medo do fracasso. Não é nada disso. É que escreveram a nota, mas esqueceram-se de se suicidar. Passam o resto da vida sabendo que faltou alguma coisa na sua obra e não sabendo o que é. Faltou o suicídio."
Levantou-se, ficou olhando a tela do computador, depois sentou-se de novo. Digitou:
"No fundo, no fundo, a agonia é saber quando se terminou. Há os que não sabem quando chegaram ao final da sua nota de suicida. Geralmente, são escritores de uma obra extensa. A crítica elogia sua prolixidade, a sua experimentação com formas diversas. Não sabe que ele não consegue é terminar a nota."
Desta vez não se levantou. Ficou olhando para a tela, pensando. Depois acrescentou:
"É claro que o computador agravou a agonia. Talvez uma nota de suicida definitiva só possa ser manuscrita ou datilografada à moda antiga, quando o medo de borrar o papel com correções e deixar uma impressão de desleixo para a posteridade leva o autor a ser preciso e sucinto. Tese: é impossível escrever uma nota de suicida num computador."
Era isso ? Ele releu o que tinha escrito. Apagou o segundo "no fundo". Era isso. Por via das dúvidas, guardou o texto na memória do computador. No dia seguinte o revisaria.
E foi dormir.

Luís Fernando Veríssimo
Ilustração: razorblade by *ValentinaKallias



 Escrito por Mago às 19h27
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CINEMA E DETETIVES

Rogério Ferraraz: Eu poderia dizer que, para entender sua obra, deve-se prestar atenção aos fragmentos e às abstrações?

David Lynch: Você deve prestar atenção sim, e, para mim, quando você faz um filme, todo elemento é crítico. Então, falando sobre absurdo, é absurdo pensar que você pode levantar no meio de um filme, sair para comprar uma Coca-Cola, ir ao banheiro e voltar à sala e dizer que você viu o filme. É absurdo pensar que o filme está passando, você vai à cozinha, faz um café para você ou come um donut, volta e diz que viu o filme. Nesses dias, especialmente a televisão é feita dessa forma, em que você pode sair, ouvir a trilha, parar, depois voltar e realmente não sentir que você perdeu alguma coisa. Isso para mim é de uma grande tristeza e não é a forma. O modo ideal é como nos velhos tempos, em que você ia ao cinema e tudo era desenhado para não te distrair. Quando o filme começava, todo o seu foco estava lá. Você entrava naquele mundo e era como uma estória de detetives. Porque todos nós somos como detetives. Nós temos que ver cada coisa, pois cada coisa pode ser uma pista. Mesmo que não seja uma estória de detetives. Para tudo ser sentido apropriadamente, todos os frames devem ser vistos, todos os sons devem ser ouvidos. E quanto mais e melhor você vê e escuta, mais você pode dizer que realmente viu, escutou, experimentou aquele filme.

Trecho da entrevista que Rogério Ferraraz fez com David Lynch nos Estados Unidos, disponível no site Cinequanon



 Escrito por Mago às 15h17
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SOBRE ARTE E MAGIA

Toda a arte e impulso criativo humano devem ter dado seus primeiros passos dentro da esfera da magia, sendo percebidos, em primeiro lugar, como tal.

As raízes da arte são distantes e obscuras. Os primeiros poemas, danças, imagens e sons estruturados não foram registrados exceto em lendas e tradições; na nódoa ocre na parede de uma caverna que, de certa forma, era a espinha curvada de um bisão para sua audiência inicial. Não podemos mais calcular o impacto que esses saltos de abstração devem ter tido sobre a mente paleolítica: os súbitos significados pelos quais se apreendia um campo de pensamentos e conceitos novo e fabuloso, tão verdadeiro e imediato quanto os caminhos sujos e abarrotados percorridos pelo homem primitivo diariamente, talvez menos substancial e, assim, menos vulnerável ao tempo e às estações.

A primeira codificação da dura realidade pessoal do homem primitivo em sons e símbolos deve ter oferecido um poder de comunicação alienígena e sem precedentes ao seu usuário, talvez equivalente ao que a telepatia pareceria para nós. O primeiro a captar alguma verdade inata do mundo humano dentro das linhas de um desenho ou da dança propeliria sua audiência através de um plano de compreensão e percepção diferente, mais extremo do que os efeitos de qualquer droga. Os desenhos nas paredes das cavernas de Lascaux, independentemente de qualquer significância ritual que pudessem ter, são em si mesmos um ato de magia. Para aqueles que não tinham o conceito prévio de uma imagem manufaturada, deve ter parecido que animais saltitantes foram conjurados em carne e osso e manifestaram-se dentro da própria caverna.

Se esta parece uma interpretação extrema de nossa primeira resposta para a arte, considere um exemplo posterior: quando Winsor McCay, um artista creditado com a invenção do desenho animado, exibiu pela primeira vez seu protótipo Gertie, the dinosaur, em 1914, a reação da audiência foi instrutiva. Sem o aparato perceptivo necessário para aceitar a noção de um desenho de animais, a maior parte da audiência, ao contrário, acreditou que estava testemunhando a aparição de um dinossauro real, de carne e osso sobre o palco diante dela.

Alan Moore
Citado por Abs Moraes em: The Birth Caul: apenas uma membrana?
Ilustração: The Birth Caul by Eddie Campbell



 Escrito por Mago às 23h26
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TOCO A TUA BOCA...

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenha-la com minha mão em seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de flagrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, esta instantênea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

Júlio Cortázar
O Jogo da Amarelinha - Capítulo 7



 Escrito por Mago às 23h05
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NOTHING

Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um pára-brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipóias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel's check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.

Pagu/Patricia Rehder Galvão
Publicado n'A Tribuna, Santos/SP, em 23/09/1962



 Escrito por Mago às 22h57
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OS MORTOS TÊM SUAS ESTRADAS...

Por elas transitam filas constantes de trens-fantasmas, carruagens de sonhos, atravessando a terra árida atrás das nossas vidas, com um tráfego infindável das almas que partiram. Seu ritmo monótono e pulsante pode ser ouvido nos lugares devastados do mundo através de fendas produzidas por atos de crueldade, violência e depravação. Sua carga, os mortos errantes, pode ser vista de relance quando o coração está a ponto de explodir, e visões que deviam estar ocultas surgem definidas.
Têm placas indicadoras, essas estradas, assim como pontes e acostamentos. Têm postos de pedágio e cruzamentos.
É nessas intersecções, onde multidões de mortos se encontram e se cruzam, que tais estradas proibidas têm mais probabilidade de penetrar nosso mundo. O tráfego é denso nos cruzamentos, e as vozes dos mortos mais penetrantes. Aí, as barreiras que separam uma realidade da outra estão gastas e tênues devido à passagem de incontáveis pés.
Uma das intersecções de estrada dos mortos ficava em Tollington Place, número 65. Apenas uma casa isolada, de falso estilo georgiano e fachada de tijolos, o número 65 não se destacava na paisagem. Uma casa velha, nada notável, despida da grandeza barata que ostentara no passado, há mais de dez anos encontrava-se vazia.
Não foi a umidade crescente que afugentou os inquilinos do número 65. não foi o bolor no porão, nem a sucumbência do terreno, que abrira uma fresta larga na frente da casa, dos degraus de entrada até o beiral, foi o barulho do tráfego. No andar superior, o ruído daquele movimento era contínuo. Rachava o estuque das paredes e retorcia as vigas. Sacudia os vidros das janelas também. O número 65 da Tollington Place era uma casa mal-assombrada, e ninguém podia possuí-la muito tempo sem ficar insano.
Em certo período de sua história, um horror fora cometido naquela casa. Ninguém sabia quando, nem o quê. Mas mesmo para o observador desavisado a atmosfera opressiva da casa, especialmente no andar superior, era evidente. Havia a lembrança e a promessa de sangue no ar do número 65, um cheiro que se instalava nas narinas e enjoava o estômago mais forte. A casa e as vizinhanças eram evitadas pelos insetos daninhos, pássaros e até pelas moscas. Nenhum cupim rastejava na cozinha, nenhum pardal fizera seu ninho no sótão. Fosse qual fosse a violência perpetrada, havia rasgado a casa de cima a baixo, como a barriga de um peixe, e através desse corte, daquele ferimento aberto diante do mundo, os mortos espiavam e comentavam o dia a dia.
Pelo menos era o que se dizia...

Clive Barker
Livros de Sangue - Volume 1
Ilustração: Twins? by Little Silver Bones



 Escrito por Mago às 02h31
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A FLOR E A NÁUSEA

Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade
Ilustração: Hunting and Shooting by ~ZeEnigMa



 Escrito por Mago às 14h44
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O LAGARTO

Tinha o rosto macilento e suas roupas nunca pareciam suas. As saídas de casa eram sempre rápidas, furtivas como os olhos. Quando precisava andar mais de um quarteirão, percebia-se nitidamente o desconforto nas mãos que percorriam os braços ou puxavam a barra da blusa. Sua voz tentava um tom mais baixo, mais suave, mas sempre soava falsa e constrangia. Não tanto quanto sua risada. Surgia tão despropositada e infame, nervosa, e terminava com uma espécie de soluço que se prolonga até sumir. Quando conversava mantinha uma seriedade distante, presa não no que ouvia, mas na rigidez de seus próprios juízos. Suas relações eram estúpidas. De cada frase, gesto ou assunto das pessoas que ainda restavam ao seu lado, tirava horas de um monólogo exaltado e inútil, onde sempre deixava claro o quanto as pessoas aproveitavam de sua bondade e disposição para ajudar. Era a única que acreditava nisso, mas não importava. Seu rosto congestionava, as rugas ao redor da boca se apertavam e movia os lábios numa tentativa ridícula de sensualidade. Nos olhos surgia um brilho seco, contundente e frio. E nessas horas as coisas que dizia, seus gestos, sua figura, provocavam em quem via uma angústia que conforme sufocava e subia aos olhos, poderia estrangulá-la. Foi num desses momentos que, olhando pela janela, viu um imenso lagarto verde atravessando seu jardim. Dirigiu-lhe toda sua fúria, lhe atribuiu toda a vergonha e desgraça que já sofrera e as possíveis vindouras. Quanto mais berrava mais se irritava com aquela indiferença de lagarto. Foi quando seus olhos quase saltaram com o bombear do sangue e seu grito tornou-se contínuo, que o lagarto soltou rapidamente sua língua. Depois de totalmente enrolado, o corpo foi puxado para dentro do animal, que imediatamente tornou-se imóvel como uma pedra. Suas unhas cresceram em segundos, cravando-o ao chão. Muitas foram as tentativas de tirá-lo daqui, mas foi impossível. Então os passarinhos começaram a usá-lo para descansar e os musgos cresceram.

Priscila Miraz
Ilustração: Dorian Cleavenger



 Escrito por Mago às 02h45
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APENAS HUMANO...

Mas e quanto ao imperativo darwiniano de sobreviver e reproduzir-se? No que concerne ao comportamento cotidiano, não existe esse imperativo. Há quem fica assistindo a um filme pornográfico quando poderia estar procurando um parceiro, quem abre mão de comida para comprar heroína, quem posterga a gestação dos filhos para fazer carreira na empresa, quem come tanto que acaba indo mais cedo para o túmulo. O vício humano é prova de que a adaptação biológica, na acepção rigorosa do termo, é coisa do passado. Nossa mente é adaptada para os pequenos bandos coletores de alimentos nos quais nossa família passou 99% de sua existência, e não para as desordenadas contingências por nós criadas desde as revoluções agrícola e industrial. Antes da fotografia, era adaptativo receber imagens visuais de membros atraentes do sexo oposto, pois essas imagens originavam-se apenas da luz refletindo-se de corpos férteis. Antes dos narcóticos em seringas, eles eram sintetizados no cérebro como analgésicos naturais. Antes de haver filmes de cinema, era adaptativo observar as lutas emocionais das pessoas, pois as únicas lutas que você podia testemunhar eram entre pessoas que você precisava psicanalizar todo dia. Antes de haver a contracepção, os filhos eram inadiáveis, e status e riqueza podiam ser convertidos em filhos mais numerosos e mais saudáveis. Antes de haver açucareiro, saleiro e manteigueira em cada mesa, e quando as épocas de vacas magras jamais estavam longe, nunca era demais ingerir todo o açúcar, sal e alimentos gordurosos que se pudesse obter. As pessoas não adivinham o que é adaptativo para elas ou para seus genes. Estes dão a elas pensamentos e sentimentos que foram adaptativos no meio em que os genes foram selecionados.

Steven Pinker



 Escrito por Mago às 02h42
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ESCREVER, HUMILDADE, TÉCNICA

Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de... de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse "estilo" (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em "humildade", refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade como técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.

Clarice Lispector
Para não esquecer (1978)



 Escrito por Mago às 23h32
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CARTÕES RUSSOS

O coração apertava quando parava no canteiro central da avenida e as quatro pistas de carros correndo, duas para a ida e duas para a volta, lhe comprimiam o corpo, aquele corpo tão pequeno. E o que era o estar ali parada sem mais, sem saber pra onde, e ainda comprimida, ou sabendo, e a diferença não era essa, não existia diferença entre os motivos que languidamente desconhecia, falando ao deus-dará, para o que ia além daquela sensação de fracasso entranhada, de ossos moldáveis que já não estalavam mais, e pronto, de novo a existência da boca do estômago, do estômago que gostava de esquecer que existia por razões plausíveis. Impulsivamente fechava os olhos com força. Quando abria o sinal de pedestres, corria trocando os passos com firmeza, um frente ao outro, e já do lado de lá, os olhos calmos, compassava o andar, a c