Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago), um personagem à procura de uma saída.  victor_constantine@hotmail.com

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Sagrada Ordem dos Antigos Mistérios


UM ADEUS...

Foi uma bela jornada... mas chegou a hora de dizer adeus a esse velho blog que foi meu companheiro em tantos momentos insólitos, receptáculo de minhas dores, alegrias e neuroses, retrato cifrado de minha mente conturbada... especialmente durante os anos loucos que vivi em Londrina/PR cursando Artes Cênicas na Universidade Estadual de Londrina, onde eu postava atualizações em cybercafés que funcionavam de madrugada, entre uma cerveja e outra no Valentino (que ainda era "O Valentino", para os que lembram o que isso significa).
A Sagrada Ordem dos Antigos Mistérios continuará on-line (enquanto o UOL assim permitir) mas encerrado, congelado nessa espécie de "formato final", ciente de ter cumprido o propósito daquele primeiro post enterrado em suas entranhas. Certamente os equivalentes virtuais a folhas secas, teias de aranha, rachaduras e poeira se acumularão com o tempo... faz parte.
A jornada continua, claro, sob outras formas, tanto na vida quanto nessas embalagens de vidas que chamamos de blogs... Para aqueles que porventura passem por essa pequena mansão assombrada perdida entre os 0 e 1 da net e quiserem me seguir para novos recantos, deixo para trás os links para os blogs que mantenho atualmente: o AcompanhiA - Grupo Performático, dedicado às atividades do meu grupo de performance art e o Reminiscências de um Lorde Velho, um blog pessoal dedicado ao meu trabalho como escritor (literatura, resenhas, artigos), dessa vez sem citações, apenas minhas próprias letras...
Dito isso, um beijo a todos e até a próxima grande aventura...

Rodrigo Emanoel Fernandes, o Lorde Velho...
Ilustração: The Rain by Blackseed



 Escrito por Mago às 16h30
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O SUICIDA E O COMPUTADOR

Depois de fazer o laço da forca e colocar uma cadeira embaixo, o escritor sentou-se atrás da sua mesa de trabalho, ligou o computador e digitou:
"No fundo, no fundo, os escritores passam o tempo todo redigindo a sua nota de suicida. Os que se suicidam mesmo são os que a terminam mais cedo."
Levantou-se, subiu na cadeira sob a forca e colocou a forca no pescoço. Depois retirou a forca do pescoço, desceu da cadeira, voltou ao computador e apagou o segundo "no fundo". Ficava mais enxuto. Mais categórico. Releu a nota e achou que estava curta. Pensou um pouco, depois acrescentou:
"Há os que se suicidam antes de escapar da terrível agonia de encontrar um final para a nota. O suicidio substitui o final. O suicídio é o final."
Levantou-se, subiu na cadeira, colocou a forca no pescoço e ficou pensando. Lembrou-se de uma frase de Borges. Encaixa, pensou, retirando a corda do pescoço, descendo da cadeira e voltando ao computador. Digitou:
"Borges disse que o escritor publica seus livros para livrar-se deles, senão passaria o resto da vida reescrevendo-os. O suicídio substitui a publicação. O suicídio é a publicação. No caso, o livro livra-se do escritor."
Levantou-se, subiu na cadeira, mas desceu da cadeira antes de colocar a forca no pescoço. Lembrara-se de outra coisa. Voltou ao computador e, entre o penúltimo e o último parágrafo, inseriu:
"Há escritores que escrevem um grande livro, ou uma grande nota de suicida, e depois nunca mais conseguem escrever outro. Atribuem a um bloqueio, ao medo do fracasso. Não é nada disso. É que escreveram a nota, mas esqueceram-se de se suicidar. Passam o resto da vida sabendo que faltou alguma coisa na sua obra e não sabendo o que é. Faltou o suicídio."
Levantou-se, ficou olhando a tela do computador, depois sentou-se de novo. Digitou:
"No fundo, no fundo, a agonia é saber quando se terminou. Há os que não sabem quando chegaram ao final da sua nota de suicida. Geralmente, são escritores de uma obra extensa. A crítica elogia sua prolixidade, a sua experimentação com formas diversas. Não sabe que ele não consegue é terminar a nota."
Desta vez não se levantou. Ficou olhando para a tela, pensando. Depois acrescentou:
"É claro que o computador agravou a agonia. Talvez uma nota de suicida definitiva só possa ser manuscrita ou datilografada à moda antiga, quando o medo de borrar o papel com correções e deixar uma impressão de desleixo para a posteridade leva o autor a ser preciso e sucinto. Tese: é impossível escrever uma nota de suicida num computador."
Era isso ? Ele releu o que tinha escrito. Apagou o segundo "no fundo". Era isso. Por via das dúvidas, guardou o texto na memória do computador. No dia seguinte o revisaria.
E foi dormir.

Luís Fernando Veríssimo
Ilustração: razorblade by *ValentinaKallias



 Escrito por Mago às 19h27
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CINEMA E DETETIVES

Rogério Ferraraz: Eu poderia dizer que, para entender sua obra, deve-se prestar atenção aos fragmentos e às abstrações?

David Lynch: Você deve prestar atenção sim, e, para mim, quando você faz um filme, todo elemento é crítico. Então, falando sobre absurdo, é absurdo pensar que você pode levantar no meio de um filme, sair para comprar uma Coca-Cola, ir ao banheiro e voltar à sala e dizer que você viu o filme. É absurdo pensar que o filme está passando, você vai à cozinha, faz um café para você ou come um donut, volta e diz que viu o filme. Nesses dias, especialmente a televisão é feita dessa forma, em que você pode sair, ouvir a trilha, parar, depois voltar e realmente não sentir que você perdeu alguma coisa. Isso para mim é de uma grande tristeza e não é a forma. O modo ideal é como nos velhos tempos, em que você ia ao cinema e tudo era desenhado para não te distrair. Quando o filme começava, todo o seu foco estava lá. Você entrava naquele mundo e era como uma estória de detetives. Porque todos nós somos como detetives. Nós temos que ver cada coisa, pois cada coisa pode ser uma pista. Mesmo que não seja uma estória de detetives. Para tudo ser sentido apropriadamente, todos os frames devem ser vistos, todos os sons devem ser ouvidos. E quanto mais e melhor você vê e escuta, mais você pode dizer que realmente viu, escutou, experimentou aquele filme.

Trecho da entrevista que Rogério Ferraraz fez com David Lynch nos Estados Unidos, disponível no site Cinequanon



 Escrito por Mago às 15h17
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SOBRE ARTE E MAGIA

Toda a arte e impulso criativo humano devem ter dado seus primeiros passos dentro da esfera da magia, sendo percebidos, em primeiro lugar, como tal.

As raízes da arte são distantes e obscuras. Os primeiros poemas, danças, imagens e sons estruturados não foram registrados exceto em lendas e tradições; na nódoa ocre na parede de uma caverna que, de certa forma, era a espinha curvada de um bisão para sua audiência inicial. Não podemos mais calcular o impacto que esses saltos de abstração devem ter tido sobre a mente paleolítica: os súbitos significados pelos quais se apreendia um campo de pensamentos e conceitos novo e fabuloso, tão verdadeiro e imediato quanto os caminhos sujos e abarrotados percorridos pelo homem primitivo diariamente, talvez menos substancial e, assim, menos vulnerável ao tempo e às estações.

A primeira codificação da dura realidade pessoal do homem primitivo em sons e símbolos deve ter oferecido um poder de comunicação alienígena e sem precedentes ao seu usuário, talvez equivalente ao que a telepatia pareceria para nós. O primeiro a captar alguma verdade inata do mundo humano dentro das linhas de um desenho ou da dança propeliria sua audiência através de um plano de compreensão e percepção diferente, mais extremo do que os efeitos de qualquer droga. Os desenhos nas paredes das cavernas de Lascaux, independentemente de qualquer significância ritual que pudessem ter, são em si mesmos um ato de magia. Para aqueles que não tinham o conceito prévio de uma imagem manufaturada, deve ter parecido que animais saltitantes foram conjurados em carne e osso e manifestaram-se dentro da própria caverna.

Se esta parece uma interpretação extrema de nossa primeira resposta para a arte, considere um exemplo posterior: quando Winsor McCay, um artista creditado com a invenção do desenho animado, exibiu pela primeira vez seu protótipo Gertie, the dinosaur, em 1914, a reação da audiência foi instrutiva. Sem o aparato perceptivo necessário para aceitar a noção de um desenho de animais, a maior parte da audiência, ao contrário, acreditou que estava testemunhando a aparição de um dinossauro real, de carne e osso sobre o palco diante dela.

Alan Moore
Citado por Abs Moraes em: The Birth Caul: apenas uma membrana?
Ilustração: The Birth Caul by Eddie Campbell



 Escrito por Mago às 23h26
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TOCO A TUA BOCA...

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenha-la com minha mão em seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de flagrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, esta instantênea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

Júlio Cortázar
O Jogo da Amarelinha - Capítulo 7



 Escrito por Mago às 23h05
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NOTHING

Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um pára-brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipóias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel's check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.

Pagu/Patricia Rehder Galvão
Publicado n'A Tribuna, Santos/SP, em 23/09/1962



 Escrito por Mago às 22h57
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OS MORTOS TÊM SUAS ESTRADAS...

Por elas transitam filas constantes de trens-fantasmas, carruagens de sonhos, atravessando a terra árida atrás das nossas vidas, com um tráfego infindável das almas que partiram. Seu ritmo monótono e pulsante pode ser ouvido nos lugares devastados do mundo através de fendas produzidas por atos de crueldade, violência e depravação. Sua carga, os mortos errantes, pode ser vista de relance quando o coração está a ponto de explodir, e visões que deviam estar ocultas surgem definidas.
Têm placas indicadoras, essas estradas, assim como pontes e acostamentos. Têm postos de pedágio e cruzamentos.
É nessas intersecções, onde multidões de mortos se encontram e se cruzam, que tais estradas proibidas têm mais probabilidade de penetrar nosso mundo. O tráfego é denso nos cruzamentos, e as vozes dos mortos mais penetrantes. Aí, as barreiras que separam uma realidade da outra estão gastas e tênues devido à passagem de incontáveis pés.
Uma das intersecções de estrada dos mortos ficava em Tollington Place, número 65. Apenas uma casa isolada, de falso estilo georgiano e fachada de tijolos, o número 65 não se destacava na paisagem. Uma casa velha, nada notável, despida da grandeza barata que ostentara no passado, há mais de dez anos encontrava-se vazia.
Não foi a umidade crescente que afugentou os inquilinos do número 65. não foi o bolor no porão, nem a sucumbência do terreno, que abrira uma fresta larga na frente da casa, dos degraus de entrada até o beiral, foi o barulho do tráfego. No andar superior, o ruído daquele movimento era contínuo. Rachava o estuque das paredes e retorcia as vigas. Sacudia os vidros das janelas também. O número 65 da Tollington Place era uma casa mal-assombrada, e ninguém podia possuí-la muito tempo sem ficar insano.
Em certo período de sua história, um horror fora cometido naquela casa. Ninguém sabia quando, nem o quê. Mas mesmo para o observador desavisado a atmosfera opressiva da casa, especialmente no andar superior, era evidente. Havia a lembrança e a promessa de sangue no ar do número 65, um cheiro que se instalava nas narinas e enjoava o estômago mais forte. A casa e as vizinhanças eram evitadas pelos insetos daninhos, pássaros e até pelas moscas. Nenhum cupim rastejava na cozinha, nenhum pardal fizera seu ninho no sótão. Fosse qual fosse a violência perpetrada, havia rasgado a casa de cima a baixo, como a barriga de um peixe, e através desse corte, daquele ferimento aberto diante do mundo, os mortos espiavam e comentavam o dia a dia.
Pelo menos era o que se dizia...

Clive Barker
Livros de Sangue - Volume 1
Ilustração: Twins? by Little Silver Bones



 Escrito por Mago às 02h31
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A FLOR E A NÁUSEA

Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade
Ilustração: Hunting and Shooting by ~ZeEnigMa



 Escrito por Mago às 14h44
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O LAGARTO

Tinha o rosto macilento e suas roupas nunca pareciam suas. As saídas de casa eram sempre rápidas, furtivas como os olhos. Quando precisava andar mais de um quarteirão, percebia-se nitidamente o desconforto nas mãos que percorriam os braços ou puxavam a barra da blusa. Sua voz tentava um tom mais baixo, mais suave, mas sempre soava falsa e constrangia. Não tanto quanto sua risada. Surgia tão despropositada e infame, nervosa, e terminava com uma espécie de soluço que se prolonga até sumir. Quando conversava mantinha uma seriedade distante, presa não no que ouvia, mas na rigidez de seus próprios juízos. Suas relações eram estúpidas. De cada frase, gesto ou assunto das pessoas que ainda restavam ao seu lado, tirava horas de um monólogo exaltado e inútil, onde sempre deixava claro o quanto as pessoas aproveitavam de sua bondade e disposição para ajudar. Era a única que acreditava nisso, mas não importava. Seu rosto congestionava, as rugas ao redor da boca se apertavam e movia os lábios numa tentativa ridícula de sensualidade. Nos olhos surgia um brilho seco, contundente e frio. E nessas horas as coisas que dizia, seus gestos, sua figura, provocavam em quem via uma angústia que conforme sufocava e subia aos olhos, poderia estrangulá-la. Foi num desses momentos que, olhando pela janela, viu um imenso lagarto verde atravessando seu jardim. Dirigiu-lhe toda sua fúria, lhe atribuiu toda a vergonha e desgraça que já sofrera e as possíveis vindouras. Quanto mais berrava mais se irritava com aquela indiferença de lagarto. Foi quando seus olhos quase saltaram com o bombear do sangue e seu grito tornou-se contínuo, que o lagarto soltou rapidamente sua língua. Depois de totalmente enrolado, o corpo foi puxado para dentro do animal, que imediatamente tornou-se imóvel como uma pedra. Suas unhas cresceram em segundos, cravando-o ao chão. Muitas foram as tentativas de tirá-lo daqui, mas foi impossível. Então os passarinhos começaram a usá-lo para descansar e os musgos cresceram.

Priscila Miraz
Ilustração: Dorian Cleavenger



 Escrito por Mago às 02h45
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APENAS HUMANO...

Mas e quanto ao imperativo darwiniano de sobreviver e reproduzir-se? No que concerne ao comportamento cotidiano, não existe esse imperativo. Há quem fica assistindo a um filme pornográfico quando poderia estar procurando um parceiro, quem abre mão de comida para comprar heroína, quem posterga a gestação dos filhos para fazer carreira na empresa, quem come tanto que acaba indo mais cedo para o túmulo. O vício humano é prova de que a adaptação biológica, na acepção rigorosa do termo, é coisa do passado. Nossa mente é adaptada para os pequenos bandos coletores de alimentos nos quais nossa família passou 99% de sua existência, e não para as desordenadas contingências por nós criadas desde as revoluções agrícola e industrial. Antes da fotografia, era adaptativo receber imagens visuais de membros atraentes do sexo oposto, pois essas imagens originavam-se apenas da luz refletindo-se de corpos férteis. Antes dos narcóticos em seringas, eles eram sintetizados no cérebro como analgésicos naturais. Antes de haver filmes de cinema, era adaptativo observar as lutas emocionais das pessoas, pois as únicas lutas que você podia testemunhar eram entre pessoas que você precisava psicanalizar todo dia. Antes de haver a contracepção, os filhos eram inadiáveis, e status e riqueza podiam ser convertidos em filhos mais numerosos e mais saudáveis. Antes de haver açucareiro, saleiro e manteigueira em cada mesa, e quando as épocas de vacas magras jamais estavam longe, nunca era demais ingerir todo o açúcar, sal e alimentos gordurosos que se pudesse obter. As pessoas não adivinham o que é adaptativo para elas ou para seus genes. Estes dão a elas pensamentos e sentimentos que foram adaptativos no meio em que os genes foram selecionados.

Steven Pinker



 Escrito por Mago às 02h42
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ESCREVER, HUMILDADE, TÉCNICA

Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de... de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse "estilo" (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em "humildade", refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade como técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que erro dá à vida, faz perder muito tempo.

Clarice Lispector
Para não esquecer (1978)



 Escrito por Mago às 23h32
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CARTÕES RUSSOS

O coração apertava quando parava no canteiro central da avenida e as quatro pistas de carros correndo, duas para a ida e duas para a volta, lhe comprimiam o corpo, aquele corpo tão pequeno. E o que era o estar ali parada sem mais, sem saber pra onde, e ainda comprimida, ou sabendo, e a diferença não era essa, não existia diferença entre os motivos que languidamente desconhecia, falando ao deus-dará, para o que ia além daquela sensação de fracasso entranhada, de ossos moldáveis que já não estalavam mais, e pronto, de novo a existência da boca do estômago, do estômago que gostava de esquecer que existia por razões plausíveis. Impulsivamente fechava os olhos com força. Quando abria o sinal de pedestres, corria trocando os passos com firmeza, um frente ao outro, e já do lado de lá, os olhos calmos, compassava o andar, a cabeça bem segura pelo pescoço esguio sustentava o olhar decidido de quem ignora ou finge e de quebra o balançar dos brincos. Foi até o banco que informaram ficar em algum ponto entre a Corrientes e a Florida. Fez o câmbio de dinheiro e seguiu. Seguiu também o marulho lá guardado na cabeça, que pensou que desapareceria depois de algumas horas. Essas pequenas esperanças divertidas, mas que rapidamente perdem a graça.

Sentou-se pro café em qualquer lugar coberto que lhe protegesse da chuva que começava. Na rua, pessoas com e sem guarda-chuva, com e sem pressa, passavam, paravam, falavam, guardavam-se de quê. Coisas que fazia sem querer. Pensava nessas coisas que fazia sem querer e que, quando queria repetir não podia, porque vieram de antes: quando acertou a bola de tênis no interruptor, apagando a luz sem ter que se levantar da cama tão cômoda. Quando dizia sem ter entendido previamente o que diria. Quando esteve com os cartões postais do sebo do centro velho de Curitiba, todos estampados com alguma pintura famosa e com o que julgou ser comentários sobre as pinturas, escritos em russo no verso, em um cinza claro e que ocupava todo o lado esquerdo do cartão. Alguns estavam em branco. Outros chegaram a ser enviados, cheios de histórias, de línguas diferentes. Gostava de olhar os cartões. Achava engraçado não ter lido nenhum. Ficou tanto tempo lá, mexendo na caixa como se procurasse alguma coisa certa, mas só olhava as letras, as cores das canetas, os remetentes e os destinatários. Lembrava-se do nome de uma rua de São Paulo: Rua das Flautas Transversais. Algumas ruas de São Paulo são inscritas do lado de lá. É como se quisessem contar em duas palavras uma história fora do hábito dos moradores, fora do tempo porque indefinido. Trazer pra dentro daquelas vidas algum encanto dos que pairam, planam e evocam em nós as invenções tão necessárias para se viver. Uma cidade é sempre uma invenção tão pessoal quanto as vidas que comporta. Lembrava-se da cara que fez, de Carmen ouvindo a música do destino nas cartas ciganas, quando encontrou os versos de Tarkóvsk no emaranhado das cartas-cartões, lívida e corajosa. Duas linhas em caneta tinteiro, em letras similares ao que já havia visto talvez um dia quem sabe onde perdido no seu tempo que foi prolongando-se.

Pediu a informação ao garçom. Sério e solícito, ele disse que não sabia dizer, mas iria ligar para o serviço de informações da cidade. Da mesa onde estava, através da grande janela de vidro fosco, cheia de cartazes e adesivos e cardápios (: El Rincón Del Cacique, Savarin Turismo compromiso por el servicio de calidad, Super Mila huevo frito ensalada 2,99, Fiesta Gaúcha, Hotel Europa a metros del obelisco, ponga línea celulares tajeta de 80, La Perla café-bar-minutas, Tango show Humberto 1º 489), pode observar o homem ao telefone. Voltou minutos depois com um pequeno papel: colectivo 28 + Maipú. Ainda gesticulando como quando ao telefone, com os olhos muito escuros mantidos baixos no papel, e com o movimentar interrompido e várias vezes brusco do bigode tão longo que lhe escondia a boca, disse que deveria descer na segunda parada, dobrar a esquerda logo no fim da mesma quadra. Poderia ver o prédio na esquina. Entregou o troco do café, agradeceu, mal ouviu os agradecimentos pela informação e voltou-se em direção à porta estreita do café, sempre vago, fugidio, sem paciência, cansado.

No limite entre o toldo do café e o céu nublado, as pontas dos sapatos de pequenos saltos começavam a receber a fina garoa, que ia se espalhando e descendo pela superfície até fazer a volta do solado, e isso fez com que ela parasse. O ar daquela cidade a confundia. Podia estar chovendo ou fazendo sol, sempre perdia a direção do tempo e sentia-se nas horas da manhã. O café preto e forte lhe deu ainda maior consciência de suas entranhas e conseqüentemente daquela sensação que não definia bem. Preferiu participar do grupo das pessoas sem guarda-chuva e sem pressa. Possuía de mais palpável naquele dia, um mau humor excepcional que se confundia com as duas malas que carregava com dificuldade. Da janela do ônibus pôde ver uma mulher sentada no canteiro de alguma avenida. Sentada com os pés descalços na rua movimentada, sorrindo e brincando descontraída com sua orelha esquerda. Ria a dobrava a cartilagem da orelha para todos os lados que conseguia com seus dedos nervosos, e ria de novo para alguém que passava de carro e lhe xingava por estar onde não devia. Sorriu de dentro do ônibus, pela janela fechada, quando passou por ela, resmungou qualquer coisa que não lhe sai da cabeça desde que tomou a decisão, com a certeza de que aquela mulher riria com a consciência de seu ridículo levar-se a sério que maior só poderia ser a dela mesma. Quis descer, mas quando se deu conta já estava longe e a vontade havia passado assim.

Na esquina viu o prédio cinza e não muito alto. Contou as janelas e precisou que devia ser a primeira do segundo andar, com os gerânios vermelhos plantados nos vasos de barro sem pintura, ainda os mesmos, menos os dois que se quebraram numa manhã já longe. Depois de alguns minutos de conversa com o porteiro, além de lhe mostrar as chaves que recebeu pelo correio, foi necessária a identidade, porque não disse quando chegava, não foram avisados de sua chegada em plena tarde de segunda-feira, quando não tem ninguém em casa. O síndico subiu ao seu lado e só a deixou depois que havia aberto a porta e um retrato estratégico, provavelmente posto depois do telefonema da semana passada, lhe mostrou o mesmo rosto anos mais moço. Sozinha ali em meio aos antigos cheiros deslocados, eles e ela, do velho lugar de origens múltiplas e seguras, ajeitou a fita de cetim preta do vestido sem mais porque e tirou os sapatos. Pela janela pouco aberta entrava torturante, a sirene de um estacionamento logo em frente, carros entrando e saindo. Antes de deitar-se tomou o cuidado de deixar visível na mesa da sala, em pé, encostado à bolsa pequena e preta, um dos cartões russos, roubado, obviamente, com uma pintura de Tintoretto e os dois versos de Tarkóvisk: "porque o destino seguia-nos o rastro/ como um demente de navalha em mãos".

Priscila Miraz
Ilustração:zuckerfuss



 Escrito por Mago às 18h54
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CONTATO

A julgar pelos padrões humanos, aquilo não poderia, de modo algum, ser artificial: tinha as dimensões de um mundo. No entanto, possuía forma tão estranha e complicada, tinha nitidamente finalidade tão complexa, que só poderia ser a expressão de uma idéia. Deslizando em órbita polar em torno da enorme estrela branco-azulada, assemelhava-se a um imenso e imperfeito poliedro no qual estivessem incrustadas milhões de cracas em forma de prato. Cada um dos pratos apontava para determinada parte do céu. Todas as constelações estavam sendo acompanhadas. O mundo poliédrico vinha desempenhando sua função enigmática havia eras e eras. Era pacientíssimo. Podia esperar eternamente.
(...)
A estrela branco-azulada era circundada, à altura de seu plano equatorial , por um vasto anel de destroços em órbita - rochas e gelo, metais e substâncias orgânicas -, avermelhados na periferia e azulados mais próximo da estrela. O poliedro que tinha as dimensões de um mundo precipitou-se por uma brecha nos anéis e saiu do outro lado. No plano do anel, havia sido intermitentemente obscurecido por blocos gelados e montanhas. Agora, entretanto, seguindo sua trajetória na direção de um ponto acima do pólo oposto da estrela, a luz do Sol faiscava em seus milhões de apêndices em forma de prato. Olhando com todo o cuidado, era possível perceber um deles realizando um ligeiro ajuste de mira. Mas não se veria a rajada de ondas de rádio que jorrava dali rumo às profundezas do espaço.
(...)
Os pulsos vinham percorrendo, havia anos, o imensurável abismo entre as estrelas. Vez por outra, interceptavam uma nuvem irregular de gás e poeira, e um pouco da energia era absorvida ou dissipada. O restante prosseguia na direção original. À frente deles havia um débil fulgor amarelado, cujo brilho aumentava aos poucos entre as demais luzes inflexíveis. Ainda que para olhos humanos não passasse de um ponto, era o objeto mais brilhante no espaço negro. Os pulsos estavam encontrando um enxame de gigantescas bolas de neve.
(...)
O grande vácuo negro fora deixado para trás. Os pulsos aproximavam-se agora de uma estrela anã, ordinária e amarela, e já haviam começado a se espalhar pelo séqüito de mundos daquele sistema obscuro. Haviam passado, vibrando, por planetas de hidrogênio gasoso, penetrando em luas de gelo, clivado as nuvens orgânicas de um mundo gélido no qual se agitavam os elementos precursores da vida e varrido um planeta que já ultrapassara em um bilhão de anos o seu apogeu. Agora os pulsos batiam num mundo quente, azul e branco, que girava contra o fundo das estrelas.
Existia vida nesse mundo, vida em extravagante quantidade e diversificação. Havia aranhas saltadoras nos topos gelados das montanhas mais elevadas e vermes que se alimentavam de enxofre em respiradouros quentes que jorravam para o alto por cristas no leito dos oceanos. Havia seres que só podiam viver num ambiente de ácido sulfúrico concentrado, assim como seres que eram destruídos em contato com essa substância; organismos para os quais o oxigênio era veneno, e também organismos que só logravam sobreviver com oxigênio, que na verdade o respiravam.
Uma forma de vida em especial, dotada de um tantinho de inteligência, se disseminara havia pouco pelo planeta. Já se aventurara a viver nos leitos dos oceanos e em órbitas de baixa altitude. Ocupava, em enxames, todos os recantos e recessos de seu pequeno planeta. A fronteira que assinalava a transição entre a noite e o dia movia-se em direção a oeste, e, acompanhando seu movimento, milhões desses seres faziam suas abluções matinais. Vestiam sobretudos e dhotis; ingeriam bebidas feitas de café, chá e dente-de-leão; para se locomover utilizavam bicicletas, automóveis e bois; e pensavam em trabalhos escolares, nas perspectivas da semeadura de primavera e no destino do mundo.
Os primeiros pulsos da cadeia de ondas de rádio insinuaram-se pela atmosfera e pelas nuvens, atingiram o solo e foram parcialmente refletidos para o espaço. Enquanto a Terra girava sob eles, pulsos sucessivos chegavam, engolfando não só um planeta, mas todo o sistema. Cada um dos mundos interceptou uma parte pequeníssima da energia. A maior parte dela continuou em frente, sem esforço - enquanto a estrela amarela e os mundos que compunham sua comitiva mergulhavam, numa direção inteiramente diferente, nas trevas caliginosas.

Carl Sagan
Contato - Cap. 1, 2, 3 e 4
Ilustração: 2001 - Uma Odisséia no Espaço



 Escrito por Mago às 13h31
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DEFORMIDADE

O escritor goza de uma frágil saúde irresistível, que provém do fato de ter visto e ouvido coisas demasiado grandes para ele, fortes demais, irrespiráveis, cuja passagem o esgota, dando-lhe contudo deveres que uma gorda saúde dominante tornaria impossíveis. (...)
A debilidade e exaustão do escritor devem-se ao fato de que ele viu demais, ouviu demais, foi atravessado demais pelo que viu e ouviu, desfigurou-se e desfaleceu, pois é grande demais para ele. Porém, uma vez que ele só pode manter-se permeável se permanecer numa condição de fragilidade, de imperfeição, essa deformidade, esse "inacabamento", seriam a mesma condição da literatura, pois é ali onde a vida se encontra em estado mais embrionário, onde a forma ainda não 'pegou' inteiramente. (...) Não há como, pois, preservar essa "liberdade de seres ainda por nascer" num corpo excessivamente musculoso, em meio a uma atlética auto-suficiência, demasiadamente excitada, "plugada", obscena.

Peter Pát Pelbart
O Corpo Informe / Leituras do Corpo
Ilustração: Frank Frazetta



 Escrito por Mago às 01h56
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SOBRE PARIS...

Parece que está acabando a minha vida na Villa Borghese. Bem, apanharei estas páginas e mudar-me-ei. Acontecerão coisas em outros lugares. Sempre estão acontecendo coisas. Parece que onde quer que eu vá existe drama. As pessoas são como chatos - penetram na pele da gente e enterram-se lá. A gente coça e coça até sair sangue, mas não pode livrar-se permanentemente dos chatos. Em toda parte onde vou, as pessoas estão fazendo uma trapalhada em suas vidas. - Todos têm sua tragédia particular. Está no sangue agora - infortúnio, tédio, aflição, suicídio. A atmosfera está saturada de desastre, frustração, futilidade. Coça-se e coça-se - até não restar mais pele. Todavia, o efeito sobre mim é estimulante. Em vez de ficar desencorajado ou deprimido, divirto-me. Estou clamando por mais e mais desastres, maiores calamidades, malogros piores. Quero que todo mundo se desmantele, quero que todos se cocem até morrer.
(...)
Não é o acaso que trás gente como nós a Paris. Paris é simplesmente um palco artificial, um palco giratório que permite ao espectador entrever todas as fases do conflito. Por si só, Paris não inicia drama algum. Os dramas começam em outro lugar qualquer. Paris é simplesmente um instrumento obstétrico que arranca o embrião vivo do útero e coloca-o na incubadora. Paris é o berço de nascimentos artificiais. Balançando-se aqui no berço, cada um escorrega de volta para sua terra: sonha-se em voltar para Berlim, Nova York, Chicago, Viena, Minsk. Viena nunca é mais Viena do que em Paris. Tudo é elevado à apoteose. O berço entrega os bebês e outros novos ocupam seus lugares. Pode-se ler aqui nas paredes onde viveu Zola, Balzac, Dante e Strindberg, e toda gente que foi alguma coisa. Todos viveram aqui em uma ocasião ou outra. Ninguém morre aqui...

Henry Miller
Trópico de Câncer



 Escrito por Mago às 01h14
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costuro um silêncio a fios
em tira linhas furo
brechas

entre si só ficam
palavras,
flutuam bocas cordas portas,
arranco leve nós
cego pelo corpo
espera pouca, água soldada por pés:

uma agulha escorre.
calculamos a chuva de fora

Sara M.C. (04/08/06)
Ilustração: Touched by Krsnite



 Escrito por Mago às 17h24
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falta o que resta de medo
falta o você na cidade, no canto, no escuro
aqui vazio e pleno
tanta coisa se perdendo
tanto de mim que some
tantas palavras que encontro
tanto silêncio no caminho do berro

leio no vão
pedras  flutuam:
eu quebro meu choro no vento

Sara M.C. (20/07/06)
Ilustração: Let go of me by Krsnite



 Escrito por Mago às 01h18
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rezam as rosas

destes metais sonoros as peles de espera
travando luzes em cadeados de azul
miró lhe faz de samba, eu tristeza
vastas sensações são espera
negativos em pulso
armas de impulso
meus bolsos trancados sem álcool
um gomo em vasos póslembranças
como sufocando a carne
a foto rasgo digitalmente
argilas mesclo a bisturis
implorando belezas:
elas não falam “no more”

por improviso somente rosas
me reconheço sem rezas

Sara M.C. (24/07/06)
 Ilustração: Hurt by Krsnite


 Escrito por Mago às 03h33
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UMA ORAÇÃO

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

Jorge Luis Borges
Elogio da Sombra



 Escrito por Mago às 04h05
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MORELLIANA

Por que escrevo isso? Não tenho idéias claras, nem sequer tenho idéias. Há trapos, impulsos, bloqueios, e tudo procura uma forma, então entra em jogo o ritmo, e escrevo dentro desse ritmo, escrevo por ele, movido por ele e não pelo que chamam de pensamento e que faz a prosa, literária ou outra. Há primeiro uma situação confusa, que mal se pode definir pela palavra; é dessa penumbra que eu parto, e, se aquilo que quero dizer (se aquilo que quer dizer-se) tiver força suficiente, o swing começa imediatamente, um oscilar rítmico que me traz para a superfície, que ilumina tudo, que conjuga esta matéria confusa e o que a padece numa terceira instância, clara e como que fatal: a frase, o parágrafo, a página, o capítulo, o livro. Esse oscilar, esse swing no qual se vai informando a matéria confusa, é a única certeza, para mim, da sua própria necessidade, pois, tão logo cessa, compreendo que já nada mais tenho para dizer. É também a única recompensa do meu trabalho: sentir que aquilo que escrevi é como o dorso de um gato sob a carícia, com fagulhas e um arquear cadencioso. Assim, pela escritura, desço ao vulcão, aproximo-me das Mães, entro em contato com o Centro, seja o que for. Escrever é desenhar a minha mandala e, ao mesmo tempo, percorre-la, inventar a purificação, purificando-se; tarefa de um pobre xamã branco com cuecas de náilon.

Julio Cortázar
O Jogo da Amarelinha - Capítulo 82



 Escrito por Mago às 17h24
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SOLITÁRIO ENTRE NÓS

...ao descer aquelas escadas toscas, sentindo a madeira ranger sob os seus pés, não pôde deixar de sentir uma opressão quase física. A sensação não lhe era de todo estranha: era similar ao mau estar que já o dominara tantas vezes em outras festas, a diferença agora estava na intensidade. Ao adentrar aquele porão (ou seria cripta?), tão secreto quanto solitário, escuro e fétido, foi dominado por uma angústia terrível, como se o peso de um mundo fosse despejado sobre suas costas. Caminhou por aquele lugar, tão amplo que seria necessário o tempo de uma vida para explora-lo e, quase que por instinto, seus passos o guiaram até ELE. Na penumbra das tênues lamparinas, ele era quase invisível. Jazia, sentado na poeira, encolhido e imóvel, abraçando as pernas contra o corpo numa posição fetal. Não tinha traços físicos ou características que o individualizassem: seu corpo era liso e amorfo, como um boneco de massa, sem feições, sem textura, sem cor, tão transparente que podia enxergar através dele. Não estava vivo, mas tampouco estava morto: tais conceitos não se aplicavam a ele. Estava inanimado agora. Era até difícil acreditar que, poucas horas atrás, na festa logo acima daquele porão tétrico, essa mesma figura não só possuía forma, cor e vida, como também emanava um encanto quase irresistível. Dançava, sorria, amava, cada gesto carregado de intensa vivacidade, tão belo que seria capaz de seduzir a quem quer que desejasse, como de fato o fez. Agora que todos haviam partido, não era mais nada. Toda beleza, toda vida, se fora.
Aproximou-se, fascinado, e, para seu espanto, ele repentinamente tomou cor, tomou forma, começou a respirar. Ergueu a cabeça e sorriu. O rosto... era o seu rosto...

Rodrigo Emanoel Fernandes (Mago)
Fragmento da noveleta Solitário Entre Nós, de 1997, revisto e modificado em Junho de 2006.



 Escrito por Mago às 18h46
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CARTA SOBRE CORTO MALTESE

Presadíssimo Sr. Ivaldi,

Com esta carta comunico-lhe que os manuscritos de Cain Groovesnore, meu tio, eu os confiei ao Sr. Pratt. Como também o livro de bordo do Capitão de Fragata Slütter e dois mapas marítimos que pertencem ao Capitão Galland.
Isso foi tudo o que pude encontrar entre os velhos papéis e livros de meu pai, além de uma carta da prima de meu tio, Pandora Groovesnore, que ficou comigo.
A carta em si não tem muito valor documental para a história que deseja publicar. Mas somente um valor afetivo para mim, todavia transcreverei um breve trecho que pode lhe interessar.

Diz: ...se vires Cain lembra-lhe que não se esqueça de enviar-me aqueles mapas que estou esperando. Conta-lhe que as crianças estão bem e que Pamela pergunta sempre por ele. Nós também estamos muito bem, mas tivemos uma desgraça na família, o tio Tarao morreu. Deixou um grande vazio entre nós, mas é sobretudo pelo tio Corto que agora me preocupo. Aqueles dois se compreendiam perfeitamente e eram inseparáveis. Agora, quando vejo o tio Corto sentado sozinho no jardim, com o olhar apagado diante daquele seu grande mar, sinto um aperto no coração. As crianças procuram fazer-lhe companhia, mas ele quase nem as percebe. Cain deveria vir aqui por algum tempo. A primavera já chegou e o jardim já está cheio de flores...

A carta continua ainda, mas não nos diz mais respeito. Há algumas manchas nela que parecem ser produzidas por lágrimas.
Diz-se que o último pirata foi Lafitte, mas não é verdade. O último pirata é o Monge. Costumo dizer: é... porque estou certo de que não terminou os seus dias e isso deveria surpreender, uma vez que, quando Cain Groovesnore o encontrou, estava ele já velho. Isso aconteceu em 1914, em uma zona do Pacífico Sul. Lá encontrou também Corto Maltese, o verdadeiro marinheiro, Capitão Rasputin, um maldito assassino, o Capitão de Fragata Slütter, que foi um herói obscuro, o maore Tarao, seu amigo, e, por último, Geremias, que poderia ter sido tudo e preferiu ser ninguém.
Esses foram os personagens importantes entre tantos outros e tiverem um grande peso em sua vida. Penso que quando era jovenzinho devia ter um caráter irascível, bastante preguiçoso e vazio. Certamente foram os tapas de Corto Maltese e a nobreza de Geremias que o mudaram, além das humilhações que sua prima Pandora lhe infligiu, que Deus a abençoe. Esta é uma história verdadeira e eu não a teria revelado nunca se o Sr. Pratt não tivesse insistido para que eu contasse todos esses fatos. Termino assim essa carta e o saúdo cordialmente, junto com sua família. Espero revê-lo brevemente e não se esqueça que estamos aqui a sua espera.

Seu, R. Obregon Carranza
16/6/65 Viña del Mar (Chile)

Carta publicada na edição brasileira de A Balada do Mar Salgado, de Hugo Pratt, na primavera de 1983 pela Editora L&PM



 Escrito por Mago às 14h04
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SECHIISLAND'S MICRO GALLERY - Um Lugar Para Falar de Arte

Peço licença aqui, ao leitor apressado, para que dedique a esse texto um pouquinho mais de tempo e atenção. Não demorará muito, eu prometo. O objetivo é arranhar de leve um pequenino aspecto da, sempre relevante, discussão sobre a produção artística atual em suas manifestações mais subterrâneas e distantes da onipresente mesmice regurgitada pela mídia. O discurso televisivo, o culto à fama - tão presente na cultura ocidental - leva as pessoas a confundirem artistas com celebridades, achar que Arte se resume ao ator da novela, o cantor do rádio, o apresentador da TV, pouco importando a qualidade do trabalho dos mesmos, basta estarem na mídia. Quem não estiver simplesmente não existe. Chega a ser óbvio dizer que a Arte é muito mais do que isso e que os grandes artistas - que não estão e nem querem estar na mídia (mas nem por isso são menos célebres entre os que convivem com a Arte) - são pessoas comuns como eu e você, caminham conosco nas ruas, são acessíveis e nada têm do estereotipo de artista distante e hermético, colocado num pedestal. São pessoas que podem nos ensinar, melhor do que ninguém, que a diferença entre o mundo que aí está e o mundo que nós sonhamos é uma simples questão de vontade. Para exemplificar, gostaria de falar sobre uma dessas pessoas, residente em Rio Claro, interior de São Paulo. Seu nome é José Roberto Sechi, um artista plástico de raro quilate que, como acontece com todos os bons artistas, é considerado brilhante por alguns e tolo por outros. Sechi é pintor, escultor, poeta e uma verdadeira enciclopédia viva da História da Arte. Já teve trabalhos selecionados em mais de uma centena de salões de arte, concursos de poesia e antologias literárias, tendo sido premiado 43 vezes. Suas obras já estiveram expostas no Centro Cultural e no Gabinete de Leitura de Rio Claro, mas é muito improvável que algum dos habitantes da cidade se lembre disso. Exposições em locais públicos são sempre notadas superficialmente. Ficam ali, implorando atenção de pessoas apressadas demais para dedicar mais do que uma breve olhadela. São meramente "vistas", não "lidas", não são assimiladas, interpretadas, não alteram em nada as pessoas que passam por elas. Estão apenas ali, no caminho, "para inglês ver". Isso sem contar que o tratamento dado à Arte nesses ditos "espaços culturais" é, quase sempre, do mais completo descaso.

Farto desse tipo de coisa, Sechi deu início a um projeto muito pessoal, algo que vem germinando desde os tempos em que foi funcionário dos Correios. Nessa época, Sechi aprofundou seus contatos com o movimento da Arte Postal, um atuante sistema estratégico de intercâmbio artístico, no qual envelopes, cartões, selos, pacotes, carimbos, etc. tornam-se veículos para obras de arte ou mesmo as próprias. O sistema internacional dos correios é literalmente invadido por manifestações artísticas que cruzam fronteiras, trocam de mãos, reproduzem-se, quebram barreiras de idiomas e culturas e criam uma vasta rede de intercomunicação entre artistas de todo o mundo. Pessoas, óbvio, totalmente ausentes da mídia, invisíveis para o mundo dos não-engajados na arte, mas extremamente presentes como forças políticas, estéticas e ideológicas nesse imenso caldo cultural underground.

O envolvimento de Sechi com a Arte Postal permitiu o fortalecimento de laços com artistas do mundo todo. Autodidata e estudioso de idiomas, comunica-se nas mais diferentes linguagens, desde o velho inglês até línguas complicadas como russo e romeno. Isso permitiu que fizesse de sua casa um verdadeiro centro cultural, armazenando cuidadosamente inúmeras obras de Arte Postal, além de uma banco de dados artístico que faria inveja a muitos museus. Até porque, ao contrário de um museu, a casa de Sechi é viva e atuante. Obras não param de chegar e partir. Sechi decidiu, por fim, transformar sua própria casa num espaço alternativo para exposições e manifestações artísticas. Nasceu assim o Projeto Sechiisland que, nas palavras de seu criador: "é um país imaginário, uma ilha fantástica, um estado de espírito, um projeto de arte conceitual".

O projeto abarca, entre outras coisas, a revista "Pense Aqui", uma publicação artesanal dedicada à divulgação e documentação de obras de arte postal, mas seu carro-chefe é a "Sechiisland's Micro Gallery", um espaço destinado à pequenas exposições individuais de artistas cujos trabalhos têm em comum o fato de estarem inseridos nos movimentos experimentais artísticos e literários surgidos a partir da década de sessenta do século vinte até os dias atuais. Segundo Sechi, a proposta da micro-galeria é ser um espaço diferenciado dos tradicionais espaços para exposições. Ao invés de ser posta no caminho das pessoas suplicando a atenção de algum ocasional transeunte interessado, exige que o visitante faça o primeiro esforço e desloque-se até a periferia da cidade de Rio Claro, no objetivo não de "ver", mas sim de "ler" uma exposição de artes plásticas ou poesia visual, inclusive garantindo ao visitante o mínimo de informações necessário para essa leitura (Sechi, pessoalmente, atua como curador, orientando o visitante e respondendo perguntas). A cada mês, uma exposição diferente na galeria. A inauguração aconteceu em Primeiro de Janeiro de 2003 com a exposição Poemas para Mirar, poesia visual de Clemente Padín, do Uruguai. Prosseguiu com o brasileiro Falves Silva e sua mostra Explovisão 2003 - Poema-Processo Hoje, Walter Pennacchi, em sua mostra Opere di Collage, e muitos, muitos outros.

Você já deve ter imaginado que o número de visitantes não é muito grande. De fato, mas isso não chega a incomodar Sechi, afinal já estava previsto. O objetivo é ter um público pequeno porém diferenciado de artistas, poetas ou simples amantes da arte, que procuram uma alternativa aos produtos da mídia. Acima de tudo pessoas de fato interessadas e não meros passantes, que poderão apreciar as obras, aprender, trocar idéias e beber um bom vinho, declarando em alto e bom tom que a Arte está longe de desaparecer. Um farol brilhando no horizonte sombrio, um porto seguro para os navegantes. Um lugar para alargar os horizontes.

A Sechiisland's Micro Gallery fica na Av. M-29, 2183, Jd. São João, Rio Claro/SP (Cep. 13505-410). Os interessados devem agendar um horário com Sechi através do tel. (19) 35249629 ou pelo e-mail sechiisland@yahoo.com.br

Rodrigo Emanoel Fernandes
Ilustração: Brain Cell - Fractal - Ryosuke Cohen (Japão)



 Escrito por Mago às 19h19
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